[
Enviado SIC ao México
Porque é que a seleção portuguesa, a meio da temporada, numa altura decisiva para os clubes, vai até ao México e aos Estados Unidos, numa viagem longa, com enorme diferença de fuso horário? Não é pelo dinheiro que, noutros tempos, levou as grandes seleções a jogar em locais estranhíssimos, mas quando o cachê falava mais alto.
MIGUEL A. LOPES
Não é pelo dinheiro que a seleção nacional viaja até ao México, onde no sábado joga frente à seleção local, num particular que serve de preparação para o Mundial2026. Tudo foi estudado ao pormenor pela equipa de Roberto Martínez e pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF). O objetivo é assegurar que a seleção chegue ao Mundial nas melhores condições, com todos os recursos e, sobretudo, com experiências já vividas, dentro e fora de campo, nas mesmas condições que vai encontrar durante o Mundial.
Tudo conta para que no final sejamos felizes.
Portugal atravessou o Atlântico, passou por três fusos horários e, dizem os especialistas médicos da FPF que nas viagens de Este para Oeste, são necessários um a dois dias para adaptação. Este é um dos pontos em que a equipa médica vai estudar os jogadores, ou seja, a partir de que momento começam a libertar-se do jet leg.
Estar na Riviera Maya a preparar o jogo com o México vai proporcionar à equipa condições parecidas às que vai encontrar em Miami, onde ficará hospedada durante o Campeonato do Mundo, com temperaturas um pouco mais elevadas entre os meses de junho e julho, mas, ainda assim, idênticas.
Outro ponto é a altitude. No Mundial, Portugal poderá ter de jogar em alguma cidade com uma altitude mais alta que o habitual. Recorde-se que, no campeonato do mundo de 2010, na África do Sul, Carlos Queiroz preparou a equipa portuguesa na zona mais alta de Portugal, na Serra da Estrela. Desta vez, os especialistas médicos da FPF defendem que é necessário jogar um pouco mais acima do nível do mar, na Cidade do México, na madrugada de sábado, a 2.240 metros de altitude.
Quando não há este processo de adaptação física a um novo ambiente, neste caso, a uma altitude elevada, os jogadores podem sofrer de “mal agudo de montanha”, caracterizado por má qualidade do sono, fadiga, dores de cabeça e náuseas. Os especialistas dizem que as respostas fisiológicas à altitude têm grande variabilidade inter-individual, mas os maiores sintomas tendem a ocorrer entre o segundo e o quarto dia e, por isso, as equipas têm protocolos de treino em altitude que devem decorrer entre 2 a 6 semanas. Períodos relativamente curtos (menos de 72 horas) de aclimatização à altitude não têm praticamente efeito em termos de adaptação fisiológica.
O stress adicional de estar em altitude durante vários dias torna as sessões de treino mais difíceis e deixa os atletas, em geral, mais cansados durante o período de treino. Desta forma, a seleção irá viajar desde Cancún para a Cidade do México na noite antes do jogo, menos de 24 horas antes do início da partida, marcada por uma coincidência inusitada. A hora a que começa o jogo é, justamente, no momento da mudança de hora em Portugal. O jogo começa à 01:00 ou, neste caso, às 02:00 horas.
Dia 31, três dias depois, a seleção jogará nos Estados Unidos. E porquê em Atlanta?
O Estádio Mercedes-Benz é um dos cinco recintos americanos cobertos, mais um fator extremamente importante para testar. Dois dos primeiros três jogos da seleção no Mundial são em Houston, um estádio coberto. O protocolo do Mundial prevê que todos os estádios cobertos tenham uma temperatura de 20 graus e que a relva seja adequada a essa temperatura, já que em junho e julho há temperatura a rondar os 40 graus nos Estados Unidos.
Para além da temperatura, esses jogos em estádio coberto não estão sujeitos a suspensões por eventuais trovoadas. Isso aconteceu no verão do ano passado, no Mundial de Clubes. As intempéries obrigaram todos os jogadores e espectadores a abandonarem o estádio durante o período de suspensão, naquela que foi uma tremenda machadada para as televisões que compraram os direitos de transmissão dos jogos.
E quanto a isso não há nada a fazer. As leis americanas não vão mudar e já há um protocolo definido, assim como para as as paragens para hidratação que serão testadas nestes jogos México-Portugal e EUA-Portugal.
Os hotéis serão também idênticos aos do Mundial, na Riviera Maya. A seleção está hospedada num dos melhores resorts da região, o Faitmont Mayloba Resort, muito parecido com o hotel Four Seasons, em Palm Beach, um hotel junto à praia, muito perto da casa de férias do Presidente Donald Trump, que será uma das casas da equipa das quinas durante o campeonato do mundo. Na Cidade do México, e em Atlanta, ficará no centro da cidade, tal como irá acontecer nas deslocações a Houston, nesta primeira fase do Mundial.
O calor que vai estar nos Estados Unidos entre junho e julho é outra das preocupações, mas Martínez quer primeiro dar a cada jogador da seleção sete dias de férias antes de integrar o estágio, de forma a estarem junto das famílias e libertarem-se de todo o stress da temporada.
Depois fará em Portugal, numa altura em que as temperaturas já deverão estar altas, um mini estágio, onde os jogadores vão ser expostos ao calor durante um período entre dez a quinze dias.
Prevê-se que a seleção chegue a Miami no dia 12 de junho e tem até dia 17, dia da estreia, para se adaptar ao calor extremo que, normalmente, tem efeito a partir de cinco dias de treino no calor. No entanto, o primeiro e segundo jogos acontecem em Houston, com o estádio fechado, e sob a temperatura de 20 graus. É uma vantagem no arranque.
O sonho é ser campeão do Mundo e, para além dos 90 minutos dentro de campo, há um trabalho enorme de muitos profissionais para que a bola entre na baliza e os portugueses possam festejar. A hora é de trabalho profundo, muito estudo e de uso da tecnologia que possa ajudar a recuperação física dos atletas. Neste Mundial, as condições climatéricas serão determinantes para o êxito.
