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Neste 17 de fevereiro cruzaram‑se duas histórias: a de uma mãe nascida nesse dia e a da derradeira actuação de Molière. Em 2026, essa mãe celebra 95 anos, tendo sido criança num mundo onde ainda se via o Zeppelin passar sobre aldeias ribatejanas. Rui Tavares leva-nos ao século de Molière, o dramaturgo francês que gozou com todos
No mesmo dia 17 de fevereiro, mas de 1673 — três dias após o Carnaval desse ano —, Jean‑Baptiste Poquelin, conhecido como Molière, morre após representar “O Doente Imaginário”, comédia que satiriza médicos e a hipocondria. Em cena, interpreta um doente obcecado pelas próprias doenças, tossindo diante do público, que toma a tosse real por recurso cómico. Doente e desconfiado dos médicos, Molière acaba, ele próprio, por colapsar na noite de 17 de fevereiro.
Luis XIV e Molière
Neste episódio, Rui Tavares retoma a reflexão sobre teatro e poder, iniciada com Shakespeare (“Medida por Medida”) e Büchner (“A Morte de Danton”). Pode o palco ensaiar e desafiar os limites da autoridade, da violência e da liberdade? Molière, sob a protecção do Rei Luís XIV, fez uso desse contexto privilegiado para crítica e sátira. Destacam‑se “Tartufo”, com a hipocrisia religiosa desmascarada pelo rei, e Dom Juan, ao estilo espanhol, onde um ateu sedutor é punido por um raio divino vindo de fora da cena.
Após a morte de Molière, devotos, médicos e as classes de que escarneceu vingam‑se negando‑lhe sepultura em cemitério cristão. Mas se o tempo apagou os inimigos, o riso sobreviveu à história e continua a encantar o público.
Fotografia de Tiago Miranda, trabalho gráfico de Vera Tavares e Tiago Pereira Santos
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