As alterações climáticas poderão reduzir entre 36% e 50% das áreas com condições adequadas para o pastoreio até ao final do século, colocando sob pressão os sistemas pecuários baseados em pastagens e os meios de subsistência associados.
A conclusão é de um estudo do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), publicado na revista PNAS, que analisa o impacto de variáveis como temperatura, precipitação, humidade e velocidade do vento na viabilidade destes sistemas.
 
Atualmente, as pastagens ocupam cerca de um terço da superfície terrestre e sustentam a maior parte da produção pecuária mundial. Segundo os investigadores, o pastoreio depende de um intervalo climático específico, no entanto, estas condições estão a ser alteradas, reduzindo a área disponível para a atividade.
“O pastoreio baseado em pastagens depende fortemente do ambiente. O que observamos é que as alterações climáticas vão reduzir os espaços onde o pastoreio pode prosperar, colocando em causa práticas agrícolas que existem há séculos”, explicou Maximilian Kotz, coautor do estudo.
 
O estudo indica que entre 110 e 140 milhões de pastores e entre 1,4 e 1,6 mil milhões de animais poderão ser negativamente afetados. Uma parte significativa das populações impactadas, entre 51% e 81%, já reside em países com baixos rendimentos, níveis elevados de insegurança alimentar e fragilidade política.
África surge como a região mais vulnerável. De acordo com o estudo, as áreas de pastagem no continente poderão diminuir 16% num cenário de baixas emissões, podendo atingir uma redução de até 65% caso se mantenha a expansão dos combustíveis fósseis.
Além disso, o aumento das temperaturas poderá deslocar as zonas climáticas adequadas para sul, reduzindo a disponibilidade de terras viáveis para o pastoreio.
“As alterações climáticas irão deslocar e reduzir significativamente estes espaços a nível global, deixando menos áreas disponíveis para o pastoreio”, afirmou o autor principal Chaohui Li, sublinhando que muitos destes impactos ocorrerão em países já expostos a desafios económicos e sociais.
 
Os autores alertam ainda que a magnitude das alterações climáticas poderá limitar a eficácia de estratégias de adaptação tradicionalmente utilizadas no setor, como a mudança de espécies ou a deslocação de rebanhos.
O estudo enquadra estes riscos num contexto mais amplo, em que a pecuária representa até um quinto das emissões globais e ocupa cerca de 80% das terras agrícolas. Ao mesmo tempo, o setor já enfrenta efeitos das alterações climáticas, com impactos na produção e nos preços da carne.
Neste cenário, os investigadores apontam a redução de emissões, nomeadamente através da diminuição do uso de combustíveis fósseis, como uma das principais estratégias para mitigar os impactos no setor pecuário e preservar a viabilidade dos sistemas de pastoreio.
