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Estudo concluiu que a distância é um dos motivos mais penalizadores que condicionam a escolha no acesso à universidade. Entre 2013 e 2023, registou-se uma forte concentração de estudantes no Litoral.
Dani Serrano/Getty Images
A mobilidade dos estudantes continua marcada pela distância, geografia institucional e condições socioeconómicas de origem, concluiu um estudo do Centro de Reflexão da Fundação Belmiro de Azevedo (Edulog). Os alunos do Interior do país e com menos recursos são os mais prejudicados. Em Medicina, há menos sensibilidade à distância.
A investigação “Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior”, do Edulog, analisou as desigualdades regionais e a mobilidade dos estudantes no acesso ao Ensino Superior durante a última década. O estudo evidencia que as dificuldades são “persistentes ao longo dos anos“.
Segundo o Edulog, os diplomados das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto são particularmente sensíveis à distância, “uma vez que beneficiam de uma rede ampla de instituições próximas, que tornam menos atrativos os destinos mais distantes”.
Pelo contrário, os alunos do Interior revelam menor sensibilidade, dado que frequentar o ensino superior acarreta quase sempre deslocação ou mudança de residência.
Em declarações ao Diário de Notícias, Rui Tomás, secretário-geral do Piaget, afirmou que a falta de evolução na resolução do panorama que prejudica os alunos de regiões do Interior existe porque as desigualdades regionais “não são apenas educativas: são territoriais, económicas e demográficas.”
O secretário-geral do Piaget destacou que é necessário ter em conta que os gastos destes alunos no Ensino Superior não se cingem à propina.
“Quando um estudante vive longe de um grande centro, o custo real de estudar não é só a propina; é o alojamento, o transporte, a distância à família, a necessidade de conciliar trabalho com estudo e, muitas vezes, a ausência de redes de apoio”, afirmou Rui Tomás.
Um quinto dos diplomados em Lisboa, Porto, Sintra, Braga e Cascais
A investigação da Edulog baseou-se em dados administrativos de cerca de 724 mil diplomados do ensino secundário residentes em todos os municípios do território continental entre 2013 e 2023 e destacou a forte concentração de estudantes no litoral, em particular entre a Península de Setúbal e Viana do Castelo.
Os municípios de Lisboa (7,9%), Porto (4,8%), Sintra (2,8%), Braga (2,8%) e Cascais (2,3%) concentram, juntos, cerca de um quinto dos diplomados dos secundários.
Dos 278 municípios de Portugal continental, 19 deles não registaram qualquer diplomado do ensino secundário entre 2013 e 2023.
O secretário-geral do Piaget sublinha que a concentração mais baixa de diplomados nas regiões do Alentejo e do Algarve está “possivelmente associada ao envelhecimento da população e à consequente menos procura por custos de ensino secundário nestas áreas”.
Para o responsável do Piaget, o “país tornou-se mais assimétrico ao longo do tempo” e a “concentração de emprego qualificado, serviços e oportunidades em determinadas áreas cria um ciclo difícil de quebrar”.
“Quem pode sai, quem fica tem menos condições e o território perde massa crítica. Por isso, quando falamos de acesso, temos de olhar para o percurso completo do estudante, não apenas para o momento da candidatura, disse Rui Tomás.
Medicina menos sensível à distância
Especificamente no curso de Medicina, “os estudantes demonstram menor sensibilidade à distância quando comparados com os alunos da generalidade dos cursos”.
Segundo a Edulog, isto deve-se ao facto de Medicina ser um curso “altamente seletivo e prestigiado“, no qual “a distância perde relevância”. Os fatores socioeconómicos, pelo contrário, tornam-se mais determinantes nesta área de formação.
Reduzir as desigualdades
No que toca a soluções para atenuar as desigualdades no acesso ao Ensino Superior, os investigadores propõem a implementação de apoios diferenciadospara a mobilidade e a criação ou reforço de bolsas específicas de deslocação e residência para estudantes do Interior. Sublinham também a importância de apoios de transporte e alojamento “sobretudo para os estudantes provenientes de regiões periféricas”.
Para além disto, os responsáveis do estudo advogam que deve haver um reforço do Ensino Superior nas regiões do Interior do país.
Para Rui Tomás, a solução deverá passar por “uma estratégia territorial coerente, que trate a coesão como política de qualificação”. O responsável do Piaget sublinha que as instituições de ensino fora dos grandes centros urbanos têm um papel fundamental na resolução do problema.
“Isto passa por reforçar a oferta onde ela faz falta, por criar incentivos à fixação de talento e por ligar formação a desenvolvimento local. Um território que perde jovens perde futuro e o Ensino Superior pode e deve ser parte da solução”, concluiu o secretário-geral do Piaget.
