Economia

Antidepressivos não servem apenas para tratar a depressão

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Consulta aberta

Há pouco tempo, Portugal voltou a ser apontado como o segundo país da OCDE com maior consumo de antidepressivos. E isto faz-nos pensar mas também é importante olhar para o contexto e não pensar automaticamente que estamos a medicar mal ou em excesso.

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Primeiro, porque os antidepressivos não servem apenas para tratar a depressão. Estes medicamentos também são usados, com boa evidência científica, para tratar várias perturbações de ansiedade, perturbação obsessivo-compulsiva, alguns casos de dor crónica ou até algumas perturbações do sono. Portanto, quando falamos de “antidepressivos”, estamos a falar de medicamentos que têm várias indicações médicas.

Depois, temos de pensar porque é que temos esta prevalência relativamente elevada de perturbações de ansiedade e depressão quando comparados com outros países europeus. E aqui há fatores sociais muito importantes: precariedade laboral, pobreza, isolamento social ou maior carga de doença crónica com grande impacto na qualidade de vida, a crise de habitação, a falta de apoio social, a dificuldade no acesso à cultura, ao desporto e à arte. Tudo isto contribui inevitavelmente para estes números.

Para além de tudo isto, há um outro problema significativo, que é a falta de acesso a tampo e horas aos cuidados de saúde. Em Portugal temos menos psicólogos, menos terapeutas ocupacionais, menos assistentes sociais e menos profissionais de saúde da área de saúde mental do que seria desejável. E quando uma pessoa está em sofrimento psicológico e não consegue acesso rápido a psicoterapia, muitas vezes a medicação acaba por ser a única ferramenta disponível naquele momento, para evitar um agravamento do quadro.

Se eu tenho em consulta alguém com um quadro depressivo que, ao mesmo tempo, me diz que não consegue pagar a renda de casa, tem um trabalho de que não gosta e com péssimas condições laborais – ao ponto de nem conseguir ausentar-se uma hora por semana para eventuais consultas de psicologia -, que não tem rede de apoio e dorme cinco horas por noite porque tem de se levantar às quatro da manhã para fazer três horas de transportes públicos imprevisíveis… como é que a posso ajudar?

Esta é uma situação que muitas vezes coloca os profissionais de saúde perante um dilema muito real: entre deixar uma pessoa em sofrimento sem ajuda ou iniciar um medicamento que possa aliviar os sintomas enquanto se tenta, ao mesmo tempo, garantir outro tipo de apoio.

Tudo isto para dizer que devemos sim olhar para estes números, mas devemos também perceber que podem refletir várias coisas ao mesmo tempo: mais diagnóstico, mais procura de ajuda, mas também falhas no acesso a cuidados necessários. Tomar antidepressivos não é um fracasso, e um diagnostico de depressão não se resolve com “levanta-te do sofá e vai apanhar sol e correr”, muito menos com um contexto social desfavorável. Em muitas situações, estes medicamentos são seguros e eficazes e podem ajudar muito na recuperação da funcionalidade e da qualidade de vida.

Posto isto, o acesso à psicoterapia, ao apoio social, a condições de trabalho dignas, sono, exercício e relações sociais são também peças fundamentais. Por isso é sempre bom que isto nos faça pensar porque é que tantas pessoas estão a sofrer e que tipo de respostas a sociedade está a conseguir dar a esse sofrimento.



SIC Noticias

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