As cidades estão a perder habitantes, funções e a própria vitalidade, alerta o urbanista Pedro Ribeiro da Silva. No Mobi Boom, defende que a mobilidade suave é uma ferramenta de liberdade e garante que transformar ruas para peões e bicicletas não tira votos, pelo contrário. Oiça aqui o podcast de mobilidade do Expresso, conduzido por Luís Costa Branco
A cidade contemporânea está a ser desenhada “como um sistema técnico e não como um sistema humano”, afirma Pedro Ribeiro da Silva. O urbanista critica a forma como o planeamento urbano se tornou refém de burocracias e pareceres, criando “corredores de leis e não corredores de pessoas”.
Para este especialista, o resultado é uma cidade onde “temos uma origem e um destino e no meio parece que não se passa nada”, descreve, sublinhando que o urbanismo “ficou perdido no século XX e ainda não o reencontrámos”.
A perda de funções urbanas (o comércio local, serviços e habitação) e o impacto do turismo estão a transformar os centros históricos em espaços vazios. “O turismo vai extraindo as funções, vai extraindo a habitação e depois extrai até as próprias pessoas”, alerta.
A mobilidade, acrescenta, deixou de ser liberdade para muitos cidadãos: “Basta olhar para as filas de automóveis para perceber que as pessoas estão aprisionadas dentro de um automóvel.” A solução, defende, passa por devolver proximidade e sociabilidade através da caminhada e da bicicleta, meios que “trazem a liberdade de estarmos com os outros”.
Ribeiro da Silva critica também a forma como o país tem tratado o transporte público e a bicicleta, lembrando que Portugal vive “uma luta cultural” entre carro e alternativas sustentáveis. Recorda o exemplo de Aveiro, onde as bicicletas públicas gratuitas criaram hábitos, ao contrário dos sistemas atuais, mais pesados e burocráticos.
E deixa um aviso: “O autocarro está no meio do tráfego, portanto não é concorrencial.” Para o urbanista, a mobilidade só será sustentável quando o uso do solo e as funções urbanas forem repensadas a montante.
Apesar das dificuldades, o urbanista acredita que as cidades têm uma enorme capacidade de regeneração e que a coragem política compensa. Cita exemplos europeus e portugueses onde medidas de mobilidade suave enfrentaram resistência, mas acabaram por ser bem‑sucedidas. “A mobilidade suave faz ganhar eleições”, afirma, lembrando o caso de Felgueiras, onde a redução de faixas de rodagem e a criação de espaço para bicicletas resultaram numa vitória reforçada do executivo.
O futuro, defende, deveria ser de cidades mais densas, mas estamos a construir “ilhas segregadas e periféricas”, consequência de planos diretores “sem escala nem conteúdo” para responder aos desafios atuais.
Vale a pena ouvir o episódio na íntegra no topo desta página.
A forma como nos movemos define como vivemos. Mobi Boom é um podcast semanal sobre mobilidade, inovação e qualidade de vida nas cidades. Dos carros elétricos aos bairros inteligentes, exploramos as ideias, tecnologias e tendências que estão a transformar a malha urbana e a nossa qualidade de vida. Se acredita em cidades mais verdes, humanas e práticas, este podcast é para si. Novo episódio todos os domingos.
Mobi Boom é um podcast Expresso, com produção Tale House, e a primeira temporada tem o apoio da Kinto.
