Portugal

Associação de crianças sobredotadas desafia Governo a criar equipas de intervenção

“Criar em cada agrupamento uma EIS (Equipa de Intervenção em Sobredotação) não me parece nada difícil. Pega-se num psicólogo desse agrupamento que esteja disponível para abraçar estas preocupações, pega-se num punhado de professores, uns da matemática, outros da história, outros da dança, da música e damos-lhes formação”, defende Helena Serra, uma das fundadoras da APCS, instituição criada no Porto em 1986.

Em entrevista à Lusa no âmbito do 40.º aniversário da APCS, Helena Serra desafiou o minisro da Educação e implemntar as EIS em cada agrupamento escolar do país.

Helena Serra acredita que, com uma formação bem suportada, um professor consegue sinalizar um aluno com altas capacidades e integrá-la de forma a que não sinta tédio na aula, frustração e revolta.

“Vamos supor, matemática. Todos estão a resolver uma ficha ou estão num nível de aprendizagem num determinado programa. Aquela criança [com altas capacidades] que está muito à frente, pode ir ter algo de matemática noutra turma dois ou três anos mais adiantada”, exemplifica.

Outra hipótese, é na disciplina de história.

“O docente está a dar aula de história e sabe que aquela criança [com altas capacidades] vai muito além, e em vez de estar a fazê-la estar quieta, calada, a olhar para a pessoa, traz uma proposta de tarefa diferenciada. Traz uma investigação e permite-lhe que vá para a biblioteca ou que traga o computador e que esteja ali na sala a fazer a investigação. Depois, permite-lhe que numa aula seguinte partilhe com a turma toda a investigação que fez, que também é uma curiosidade que os outros vão gostar de saber”, diz.

Helena Serra, 84 anos, lida há 40 anos com crianças sobredotadas e com as famílias, e defende que cada agrupamento escolar deveria ter uma EIS com formação na área e professores capacitados para fazer a diferenciação pedagógica numa sala de aula, no dia a dia de cada aluno especial para que este não se sinta desiludido e desmoticado com a escola.

“Andamos nessa tentativa de ser bem acolhidos nestas ideias e, através dos nossos programas, chamar a atenção para as instâncias superiores, no sentido de que têm que replicar isto por decisões oficiais”, defende Helena Serra.

O país não pode “desinvestir em crianças que nascem com as capacidades mais elevadas”, defende.

“Três a cinco em cada 100 crianças têm capacidades bem acima da média, excecionais, portanto, em cada 100, há três a cinco crianças com estas características, que estão constantemente, nas salas de aula a querer saber mais, a fazer muitas perguntas e que não têm depois a resposta nesse contexto para as suas questões (…). O ritmo do ensino não responde à sua avidez de saber”, destaca.

Helena Serra assinala que, se os alunos sobredotados forem estigmatizados, e não forem envolvidos no ensino com programas específicos, vão sentir-se infelizes na escola. Essa infelicidade e falta de estímulo pode levar os estudantes a um enorme vazio.

“Esse vazio, mais adiante, sobretudo no período mais inquieto em todos os crescimentos de toda a gente, que é a adolescência, pode inclusive levar a tentar medidas drásticas, como auto agredir-se, como fechar-se, isolar-se, tornar-se dependente de algo, de uma dependência qualquer, porventura até tentar contra a vida. A literatura científica está cheia de exemplos destes”, lamenta Helena Serra.

Helena Serra considera que o ensino para crianças com elevadas capacidades “é uma zona muito lacunosa” e “muito maltratada no país”, mas admite que com as redes sociais, a formação contínua, os congressos que a associação organiza estão a ajudar a mudar.

“Se houver cinco mil alunos, estão lá 150 destes [alunos com alta capacidades], no mínimo. Uns estão isolados, outros a pedir desculpa por existirem, outros a não querer amigos e revoltados, ou então com comportamentos provocatórios, a riscar o carro do professor com um prego”, alerta.

A APCS foi criada no Porto há 40 anos, apoia uma média de 200 a 300 por ano e tem cerca de 80 sócios.

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