O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, assegurou ter recebido “milhares de chamadas” durante a passagem das depressões atmosféricas que assolaram Portugal, no início de fevereiro, que retornou “quando era possível”, numa resposta às declarações do ministro da Defesa, Nuno Melo.
“Recebi milhares de chamadas naquela altura. Efetuei as chamadas quando era possível e nem sempre consegui receber”, começou por dizer Gonçalo Lopes, em declarações à SIC Notícias.
E complementou: “Estamos numa sala de operação, num momento em que temos de ser bastante ativos e operacionais no terreno; só assim é que conseguimos dar resposta. O primeiro contacto que fiz foi com esse objetivo, de tentar perceber até que ponto é que os militares podiam entrar mais cedo.”
O autarca assinalou, contudo, que “o relacionamento institucional entre a Câmara Municipal de Leiria e as Forças Armadas foi exemplar”.
Já na sexta-feira, Gonçalo Lopes recusou responder às declarações do ministro da Defesa, tendo em conta que “ainda há leirienses sem comunicações”.
“Leiria não quer discutir telefonemas quando ainda há leirienses sem comunicações. Queremos união e recursos para construir o concelho e quero agradecer às Forças Armadas pela elevação institucional e pelo trabalho exemplar que fizeram no terreno”, disse à agência Lusa.
Note-se que, no dia anterior, Nuno Melo disse ter contactado Gonçalo Lopes, que lhe atendeu. Lamentou, por isso, que o autarca tenha decidido “apoucar” quem o ajudou.
“Que o senhor presidente da Câmara de Leiria se tenha empenhado, também não fez mais do que é suposto. Agora, que para enaltecer o seu próprio esforço, não tenha resistido a apoucar repetidamente alguns daqueles que mais o ajudaram, isso é que não parece bem. Porque nos grandes momentos a pequena política não pode prevalecer sobre aquilo que é mais relevante”, disse, numa audição na Assembleia da República.
De acordo com o ministro, que mostrou aos deputados um ‘print’ da sua conversa com Gonçalo Lopes na rede social ‘WhatsApp’, assim que aterrou em Portugal no dia 29 de janeiro (um dia depois de a depressão Kristin ter atingido gravemente o concelho de Leiria), vindo da Turquia, o primeiro telefonema que fez foi para o autarca, que não atendeu, nem lhe respondeu a uma mensagem que enviou. Não obstante a “falta de resposta”, Nuno Melo acrescentou que os militares partiram para o distrito, referindo ainda que “muitas ajudas foram recusadas”, por terem sido consideradas desnecessárias.
O ministro detalhou que, nos dias 1 e 2 de fevereiro, a autarquia recusou militares para vigiar geradores devido a furtos. Também no dia 2, segundo Nuno Melo, foi recusada igualmente a “valência de drones aéreos”, e no dia seguinte, “uma cozinha de campanha” e um reforço com mais de 90 militares da Marinha.
Lembrando que a lei permite que as autarquias peçam auxílio direto às instalações militares no seu território, o governante afirmou que a autarquia de Leiria solicitou apenas nove camas, que foram entregues.
Gonçalo Lopes, por seu turno, adiantou que, desde o dia 28 de janeiro, o município montou uma “operação gigantesca”. Explicou, inclusive, que “todas as ajudas que chegaram” integraram o dispositivo de 700 pessoas, incluindo bombeiros, agentes de Proteção civil, forças de segurança e Forças Armadas.
“Os meios militares que vieram a ser empenhados entraram num concelho onde o dispositivo de coordenação já se encontrava plenamente montado e em funcionamento, com Posto de Comando ativo, comunicações estabelecidas e capacidade logística assegurada pelo município, incluindo combustível, alimentação e equipamentos disponibilizados para apoio às missões que vieram a ser executadas”, esclareceu ainda a autarquia, em comunicado.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro, na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos de milhares de milhões de euros. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.

