Cultura

Cabo Verde prepara primeiro transplante renal da história com apoio de equipa portuguesa


Saúde e Bem-estar

Uma equipa de médicos do Hospital de Santo António vai realizar o primeiro transplante de rim em Cabo Verde. A cirurgia, pioneira no país, acontece graças a um acordo entre os dois governos.

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Até agora, os cabo-verdianos com insuficiência renal tinham de recorrer à hemodiálise para toda a vida ou mudar-se para outro país para conseguirem realizar este tipo de intervenção.

Se tudo correr como previsto, o dia 24 de março ficará na história de Cabo Verde como a data do primeiro transplante renal no país. Um homem de 44 anos será o primeiro doente a receber um rim, doado pela irmã, alguns anos mais velha.

“Foi um desafio, inclusive para se fazer o transplante lá em bloco operatório. Não havia as condições exigíveis para um doente que vai ser imunossuprimido. Foi construído um bloco operatório de raiz equipado”, explicou a diretora da unidade de transplante renal da ULS Santo António, La Salete Martins.

Foram necessários mais de dez anos para tornar este momento possível. Numa primeira fase, foram criadas condições para que dezenas de doentes com insuficiência renal pudessem realizar hemodiálise em Cabo Verde. O projeto foi liderado pelo cirurgião português António Norton de Matos, que se desloca várias vezes por ano ao país para preparar os acessos vasculares necessários ao tratamento.

“Eles também não tinham diálise há 15 anos. Agora têm. Antes, eram obrigados a emigrar, porque não sobreviveriam lá”, afirmou o médico.

Com uma carreira marcada pelo primeiro transplante realizado há 43 anos no Porto, Norton de Matos, agora reformado, lidera a equipa que se desloca a Cabo Verde para concretizar este marco histórico.

“Queria acabar a minha carreira com isto. Estou reformado, mas continuo a operar. A única dificuldade são as burocracias e o funcionamento estrutural, que é complexo”, referiu.

No terreno, as dificuldades são evidentes.

“Por muito que eu tente explicar, ninguém tem noção da realidade que lá se passa. O doutor Norton às vezes opera de joelhos, porque os bancos da sala cirúrgica não sobem nem descem”, relatou a voluntária e gestora de missão Luísa Cudell.

Para os doentes, a possibilidade de transplante representa uma mudança profunda.

“Só deixar de fazer diálise já era bom. Vivo em Ribeira de Calhau, venho três vezes por semana, tenho de me levantar antes das cinco da manhã”, contou um paciente.

A primeira cirurgia terá lugar na capital, Praia, na ilha de Santiago. A equipa portuguesa será composta por quatro cirurgiões, uma enfermeira, uma médica nefrologista e uma voluntária.

“Andar com o doutor Norton na rua é como andar com uma estrela de cinema, está sempre a ser interpelado e agradecido”, acrescentou Luísa Cudell.

O objetivo passa também por capacitar as equipas locais.

“A ideia é que se comecem a transplantar lá. Os colegas de nefrologia já começam a ter conhecimento para acompanhar estes doentes”, explicou La Salete Martins.

A equipa do Porto prevê deslocar-se a Cabo Verde sempre que estiverem programados transplantes. Está prevista a realização de cerca de 20 cirurgias por ano, permitindo melhorar a qualidade de vida de dezenas de cabo-verdianos.



SIC Noticias

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