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Carnaval em Luanda, encontro com Fidel e o ‘beijinho’ na rainha: em 10 anos, Marcelo fez mais de 170 viagens


Em uma década, Marcelo Rebelo de Sousa tornou-se o Presidente da República mais viajado. No total, tem mais visitas que o somatório de todos os seus antecessores. Desde 2016, foram mais de 171 viagens e mais de 60 países diferentes. Pelo caminho, houve quebras de protocolo, destinos repetentes e outros um quanto controversos.

Para além das ‘selfies’ e dos apertos de mão característicos, a quantidade, diversidade e, sobretudo, a postura de Marcelo Rebelo de Sousa durante as deslocações oficiais distinguem uma presidência marcada pela proximidade e afetividade à população. No estrangeiro, não foi diferente.

Regra geral, quase todas as viagens de Marcelo Rebelo de Sousa foram relativamente curtas e não incluíram períodos livres nem pontos turísticos. O chefe de Estado preferiu sempre viagens em aviões comerciais ou militares, com comitivas reduzidas. Houve, inclusive, vezes em que Marcelo viajou sem assessores.

Marcelo, o mais viajado

Marcelo Rebelo de Sousa foi o líder desde o 25 de abril de 1974 que mais viagens oficiais realizou. Ramalho Eanes (1976-1986), teve um total de 28 viagens. Depois, Mário Soares (1986-1996) somou 48 deslocações oficiais.

Jorge Sampaio (1996-2006) viajou 45 vezes e, como último antecessor de Marcelo, Cavaco Silva (2006-2016) efetuou 26 viagens.

Em 40 anos de presidências, regitaram-se 147 viagens. Marcelo, sozinho, supera esse número.

A contagem das viagens oficiais, feita pela Lusa, abrange todo o tipo de deslocações – desde aquelas para eventos desportivos e culturais, visitas oficiais e de Estado, posses e cerimónias fúnebres, cimeiras e reuniões internacionais, comemorações do Dia de Portugal, até a visitas a forças nacionais destacadas.

A estreia no Vaticano

Recém chegado a Belém, Marcelo fez a sua primeira viagem oficial ainda no mês da tomada de posse, a março de 2016: o Presidente escolheu o Vaticano para a estreia.

A 17 de março, Marcelo encontro-se com o Papa Francisco, justificando a escolha pelo facto de a Santa Sé ter sido a primeira entidade a reconhecer internacionalmente Portugal como um Estado independente. O encontro de ambos durou cerca de meia hora.

AP Photo/Alessandro Bianchi/Reuters Pool

De Portugal, Marcelo levou seis casulas desenhadas por Siza Viera e um registo de Santo António. De Roma, trouxe versões portuguesas da encíclica “Louvado sejas” e a exortação apostólica “Alegria do Evangelho” e um medalhão do pontificado de Francisco.

Depois da primeira visita, Marcelo Rebelo de Sousa voltou ao Vaticano mais três vezes: no início do segundo mandato, em março de 2021; no funeral de Bento XVI, em janeiro de 2023; e a última em fevereiro de 2026, onde se encontrou com o Papa Leão XIV.

Para além destas Marcelo encontrou-se com o Papa Francisco em Fátima, em maio de 2017, na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Panamá, em janeiro de 2019, e na JMJ em Lisboa, em agosto de 2023.

Os países mais visitados

18 vezes em Espanha e 17 em França

Mesmo depois da primeira visita oficial, Marcelo seguiu para Madrid, onde era esperado pelo Rei Felipe VI. O país vizinho foi o destino que Marcelo mais repetiu.

O chefe de Estado português foi 18 vezes a Espanha. Aliás, a visita oficial a Madrid, na passada sexta-feira, 20 de fevereiro, marcou o fim do seu mandato presidencial.

A visita a Espanha já tinha sido adiada duas vezes, a primeira devido à operação do PR a uma hérnia e a segunda devido à situação de calamidade e às tempestades que assolaram Portugal.

A par de Espanha, França foi um dos a países mais visitados por Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente da República visitou o aliado um total de 17 vezes.

Marcelo Rebelo de Sousa a abraçar um veterano de guerra, em Richebourg, no norte de França, em 9 de abril de 2018

Pascal Rossignol / AP

Das quase duas dezenas de viagens a França, destacam-se a visita de 2016, na qual assistiu à final do Euro 2016, a deslocação durante os Jogos Olímpicos Paris 2024, entre 25 e 27 de julho de 2025, e outras tantas visitas de Estado de curta duração para encontros bilaterais.

Ao centro, Francois Hollande, então Presidente de França, com Marcelo Rebelo de Sousa à esquerda, durante a final do Euro 2016, no Stade de France, em Paris

FRANCK FIFE / AFP

Ainda nos eventos desportivos, Marcelo foi a mais de uma dezena de jogos da seleção masculina de futebol, um da seleção de râguebi e outro da seleção de andebol e à abertura dos Jogos Olímpicos de 2018, no Brasil.

Na qualidade de chefe de Estado, Marcelo visitou o Brasil cerca de nove vezes. Uma destas foi marcada pelo episódio em que Jair Bolsonaro, na altura presidente do Brasil, cancelou o almoço com Marcelo, a julho de 2022, que ia acontecer na cidade de Brasília.

Na altura, como justificação, Bolsonaro disse que cancelou o evento porque Marcelo iria reunir-se com Lula da Silva, principal adversário do então presidente brasileiro.

Marcelo Rebelo de Sousa na Praia de Copacabana, em julho de 2022

A fechar o ‘pódio’ de países mais visitados, está os Estados Unidos. Enquanto chefe de Estado, Marcelo fez 12 deslocações aos EUA.

Oito delas foram à sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Marcelo Rebelo de Sousa durante o lance inaugural do jogo de basebol entre os San Francisco Giants e os Colorado Rockies, em São Francisco, nos EUA, em 27 de setembro de 2022

John Hefti / AP

Destacam-se, também, visitas de Estado: a Moçambique, Suíça, Cuba (2016); Cabo Verde, Senegal, Croácia, Luxemburgo e México (2017); São Tomé e Príncipe, Grécia, Egito e Espanha (2018); Angola, China, Costa do Marfim e Itália (2019); Índia, em 2020, ano em que a pandemia obrigou ao adiamento de quase toda a agenda internacional; Irlanda (2022), Bélgica (2023), Países Baixos (2024), Mónaco (2025).

Dia de Portugal pelo mundo

Desde o primeiro mandato, Marcelo criou um modelo inédito para comemorar o 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O chefe de Estado tornou tradição a divisão da efeméride entre Portugal e as comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo. Só houve uma exceção, em 2020, durante a pandemia de covid-19.

Em 2016, Marcelo comemorou o feriado junto da comunidade de emigrantes em Paris. No ano a seguir, os destinos escolhidos foram o Rio de Janeiro e São Paulo.

O 10 de junho de 2018 de Marcelo foi passado na Costa Leste norte-americana. Em 2019 e 2022, seguiram-se Cabo Verde e Londres, respetivamente.

António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, nas celebrações do 10 de junho de 2016, em Paris

Miguel Figueiredo / Presidência da República

Em 2020, ano da exceção ao modelo, Marcelo assinalou a data no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, com uma programa mínimo devido à pandemia.

No ano de 2021, Marcelo retomou as viagens no feriado, mas, desta vez, dentro do território nacional. O Presidente da República interviu nas comemorações na Região Autónoma da Madeira. A pandemia foi, previsivelmente, o epicentro do discurso do chefe de Estado.

Marcelo Rebelo de Sousa nas ruas da cidade do Mindelo na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, a 11 de junho de 2019

Rui Ochoa/Presidência da República

Em 2023, a comemorar em África do Sul, Marcelo inaugurou um modelo que lançou com o primeiro-ministro, António Costa, e que prosseguiu com o atual chefe do Governo PSD/CDS-PP, Luís Montenegro.

Em 2024 e 2025, as comemorações do 10 de junho aconteceram na Suíça e na Alemanha, respetivamente.

Outros momentos icónicos

Para além da diversidade de lugares, as viagens oficiais de Marcelo Rebelo de Sousa fizeram-no estar lado a lado com um conjunto de governantes e líderes mundiais que, por uma razão ou outra, marcaram a história e conjuntura mundial.

Risos com Isabel II

Em 17 de novembro de 2016, Marcelo encontrou-se, numa audiência privada, com a rainha do Reino Unido Isabel II durante a sua viagem de dois dias a Londres. O encontro aconteceu cinco meses depois do Brexit.

No Palácio de Buckingham, Marcelo lembrou que esteve presente quando Isabel II veio a Portugal, em fevereiro de 1957.

“Estava na primeira fila e era uma criança na altura”, confidenciou o chefe de Estado. Entre risos, Isabel II respondeu: “Tenho a certeza de que era [uma criança]”.

Marcelo e Fidel Castro

O ano de 2016 teve, ainda, o encontro, em 26 de outubro, com o líder histórico cubano, Fidel Castro.

O encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa e Fidel Castro, em outubro, foi uma das últimas aparições públicas do líder histórico cubano.

© Handout . / Reuters

Esta foi uma das últimas aparições de Fidel Castro, que acabou por morrer a 25 de novembro desse mesmo ano, um mês e um dia após a visita de Marcelo.

Falar de ‘bola’ com Putin

Em 20 de junho de 2018, em Moscovo para ver Portugal jogar contra Marrocos, Marcelo Rebelo de Sousa foi recebido no Palácio do Kremlin pelo Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin.

A conversa seguiu bem humorada, com o futebol a dominar e com Putin a dizer que a seleção portuguesa era uma das mais brilhantes da Europa.

Marcelo Rebelo de Sousa e Vladimir Putin durante a reunião no Kremlin, em Moscovo, em 20 de junho de 2018

Alexei Druzhinin / Kremlin Pool Photo via AP

Ida a Pequim

Há cinco anos, em 29 de abril de 2019, outro dos líderes mundiais com os quais Marcelo apertou mãos foi Xi Jinping, Presidente da República Popular da China. A convite do presidente chinês, Marcelo foi recebido no Grande Palácio do Povo, em Pequim.

Passo de dança em São Tomé e Príncipe

As chegadas de Marcelo foram regra geral, descontraídas, marcadas pelos abraços, beijos e ‘selfies’.

A 20 de fevereiro de 2018, chegado a São Tomé e Príncipe para uma visita de três dias, o Presidente da República não disse que não a um ‘pézinho’ de dança.

Entre jovens e crianças, milhares de pessoas deram as boas-vindas a Marcelo e acompanharam-no até ao Palácio do Governo.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado pelo primeiro-ministro da República de São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada, dança com elementos de um grupo cultural na praça Yon Gato, em São Tomé, São Tomé e Príncipe.

MIGUEL A. LOPES

Bancada VIP no Carnaval angolano

Em março de 2019, Marcelo Rebelo de Sousa quebrou o protocolo na visita de Estado a Angola. O Presidente da República deslocou-se, espontânea e inesperadamente, para a bancada ‘vip’ do Carnaval em Luanda, mesmo após sair do aeroporto, a 4 de fevereiro.

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Juntamente com o ministro das Relações Exteriores de Angola, Manuel Augusto, o chefe de Estado português ficou na quarta fila da bancada vip onde permaneceu sem que a multidão percebesse que lá estava.

A quebra de protocolo gerou grande confusão entre as equipas de segurança e os jornalistas que acompanharam o Presidente português na visita a Angola.

As viagens mais controversas

Sujeitas à autorização da Assembleia da República, as viagens de Marcelo Rebelo de Sousa nem sempre foram consensuais.

Apesar de nenhuma deslocação do Presidente da República, na história da democracia, ter sido travada pelos deputados, determinadas deslocações do chefe de Estado dividiram as bancadas parlamentares. Duas delas foram a Angola.

A presença de Marcelo no funeral de Estado do antigo presidente angolano José Eduardo dos Santos não obteve unanimidade na Assembleia da República e registou a oposição da Iniciativa Liberal e do Bloco de Esquerda e a abstenção do PAN.

Também a presença na tomada de posse do presidente angolano reeleito, João Lourenço não obteve a unanimidade dos deputados.

Em 2022, uma das viagens envolta em mais polémica foi a visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao Qatar, para assistir ao jogo inaugural de Portugal no Campeonato do Mundo. A deslocação oficial contou com 19 votos contra. Pela abrangência dos partidos, foi o voto mais divisivo do mandato de Marcelo.

JOSE SENA GOULAO

Sobre a viagem, a 24 de novembro, ao Qatar, o chefe de Estado garantiu que não ia esquecer a questão dos Direitos Humanos: “Depois de amanhã [quinta-feira] estarei a falar de Direitos Humanos no Qatar”.

“Já me tinha deslocado a países vários com votos contra, por haver a ideia, daqueles que votavam contra minoritariamente, de que não sendo democracias, não fazia sentido lá ir ou que qualquer contacto seria uma legitimação” sustentou Marcelo, sublinhando que “não é essa a orientação da política externa portuguesa”, disse na altura Marcelo Rebelo de Sousa, citado pelo Diário de Notícias.

Para além de todos os momentos referidos, Marcelo Rebelo de Sousa visitou forças militares destacadas em Kaunas, na Lituânia, e em Málaga, Espanha, em 2017, na República Centro-Africana, em 2018, no Afeganistão, em 2019, na Roménia, em 2022, e na Eslováquia, em 2024.

Para além disso, Marcelo esteve em quase três dezenas de encontros multilaterais: seis reuniões da Assembleia Geral das Nações Unidas, cinco cimeiras ibero-americanas e quatro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), e ainda a sete encontros informais do Grupo de Arraiolos e quatro da organização empresarial Cotec Europa – sem contabilizar os realizados em território português.



SIC Noticias

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