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A Carris apresentou uma queixa-crime contra a médica que cobrava mil euros para obter reformas por invalidez, denunciada na Investigação SIC exibida ontem. Dezenas de trabalhadores da empresa terão recorrido a este esquema nos últimos meses. Entretanto, a médica cancelou as consultas e ainda não regressou ao consultório que tem em Santo Estêvão.
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Por estes dias, quem tinha consulta marcada foi surpreendido com um telefonema da rececionista a informar sobre a alteração de planos.
“A doutora tinha algumas pessoas marcadas para hoje e tive de ligar a avisar. Sou eu que estou a entregar os envelopes para as pessoas irem entregar à Segurança Social para a reforma”, explicou.
Muitos utentes com processos em curso foram chamados ao consultório para levantar os documentos, poucas horas antes da emissão da reportagem da SIC que denunciou o alegado esquema.
“Se calhar foi alguém que denunciou, não sei”, disse ainda a rececionista.
O caso ganhou dimensão, sendo que, só na Carris, há quase 30 trabalhadores que terão conseguido a reforma por invalidez depois de recorrerem aos serviços desta médica.
À SIC, a empresa explicou que começou a suspeitar devido ao elevado número de trabalhadores com atestados emitidos em Benavente, local que não correspondia à residência da maioria, e por todos os documentos serem assinados pela mesma médica.
Um utente relatou à SIC que não foi a médica quem lhe falou em valores, mas sim um conhecido.
“Ele trabalhou na Carris e foi reformado por invalidez. Também estava saturado, mas conseguiu uma reforma de quase dois mil euros por mês”, afirmou.
Questionado sobre problemas de saúde, respondeu: “Inventou muitos problemas (…) conseguiu apresentar relatórios e passou logo para a reforma por invalidez.”
A Carris apresentou queixa ao Ministério Público em agosto. A instituição não esclareceu à SIC que diligências foram feitas desde então.
A empresa tem vindo a juntar ao processo cada novo caso de reforma por invalidez que identifica.
A médica garante que nunca foi chamada pelas autoridades.
“É uma surpresa para mim, porque considero que é um trabalho cívico e público. Sinto-me bem em ajudar as pessoas”, afirmou.
Durante cinco meses, a Investigação SIC acompanhou o funcionamento do esquema. A médica foi também gravada a sugerir a alteração de morada dos utentes, para que fossem chamados a juntas médicas em Santarém.
Confrontada com a possibilidade de uma investigação, disse estar tranquila: “Penso que não há problemas”.
A investigação revelou ainda que a médica passava exames no setor privado utilizando credenciais de um lar de idosos de Samora Correia, de forma a que fossem pagos pelo Serviço Nacional de Saúde.
Após a emissão da reportagem, a direção da Fundação Padre Tobias rescindiu contrato com a médica, alegando quebra de confiança.
