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O que é preciso para uma trégua temporária evoluir para uma paz definitiva? Oiça aqui o último episódio do podcast “O Mundo A Seus Pés” com Joana Ricarte, professora especializada em assuntos do Médio Oriente
O cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão foi acordado depois de cinco semanas e meia de guerra no Médio Oriente. O conflito começou a 28 de fevereiro, após os EUA e Israel terem lançado um ataque militar conjunto contra Teerão e outras cidades iranianas, enquanto decorriam negociações indiretas para que fosse alcançado um novo acordo sobre o programa nuclear iraniano, que tanto preocupava o Presidente Donald Trump.
Passadas semanas de agressões militares, retaliações, fatalidades entre civis, fogo cruzado noutros países do Golfo Pérsico e uma verdadeira crise económica criada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, o Presidente norte-americano anunciou na terça-feira, dia 7, uma trégua de duas semanas e novas conversações diplomáticas, a começar na manhã de sábado.
A delegação americana será liderada pelo vice-Presidente J. D. Vance, acompanhado pelo enviado especial Steve Witkoff e pelo genro de Trump, Jared Kushner. A parte iraniana deverá ser representada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi. A suspensão dos bombardeamentos e ataques ao Irão durará, pelo menos, duas semanas.
“Donald Trump pretende clamar vitória e o que nós temos é uma vitória em toda a linha da diplomacia iraniana. O Irão conseguiu uma manobra fantástica na perspectiva diplomática negocial: vincular Israel a um acordo no qual não participou. O Irão conseguiu colocar Benjamin Netanyahu no contexto do cessar-fogo, embora não tivesse participado nas negociações e embora o Governo israelita tenha interesse em manter a guerra”, diz Joana Ricarte, professora de Relações Internacionais na Universidade do Porto.
O que é preciso para que este acordo se torne em paz duradoura? “Perceber os objetivos dos Estados Unidos, que nunca tiveram nada a ver com a questão do nuclear, e perceber como parar Israel, que tem sido um ator belicoso e não tem deixado que o conflito termine porque tem outras tentativas de expandir a sua ofensiva noutras zonas do Médio Oriente”, responde a convidada do último episódio d’“O Mundo A Seus Pés”, especializada em assuntos do Médio Oriente.
O Estreito de Ormuz, passagem marítima importante para a economia global, por onde circulavam, antes do conflito, cerca de 20% das energias fósseis mundiais, tornou-se o principal trunfo estratégico de Teerão. “O Irão tem uma arma de dissuasão fortíssima que não é nuclear, mas é económica, que é o Estreito de Ormuz. E não tem qualquer incentivo para sair da guerra abrindo mão do seu fator de dissuasão”, diz Joana Ricarte.
“O que nós temos, objetivamente falando, é Trump desesperado para sair de uma guerra da qual não sabemos sequer porque entrou. Aparentemente terá sido porque foi arrastado pelo Governo de Israel. Por outro lado, está desesperado por conta do tamanho do descalabro económico que a guerra gerou. O motivo pelo qual Donald Trump aceitou o acordo [de cessar-fogo] não tem a ver com a questão do nuclear, tem a ver com o falhanço que foi a entrada dos Estados Unidos num conflito desta envergadura, a quantidade de críticas que tem sofrido, o isolamento internacional…Vemos tudo isso no seu desespero discursivo.”
Este episódio foi conduzido pela jornalista Mara Tribuna e contou com a edição técnica de Gustavo Carvalho. O Mundo a Seus Pés é o podcast semanal da editoria Internacional do Expresso. A condução do debate é rotativa entre os jornalistas Ana França, Hélder Gomes, Mara Tribuna, Pedro Cordeiro e Catarina Maldonado Vasconcelos. Subscreva e ouça mais episódios.
