A descoberta, liderada pela Monash University e publicada na Nature Cell Biology, pode reduzir efeitos secundários e tornar os tratamentos mais eficazes, nomeadamente em algumas leucemias agressivas.

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José Fernandes
Uma equipa de investigadores da Monash University, em colaboração com a Universidade de Harvard, anunciou a descoberta de um novo mecanismo que permite “desligar permanentemente” genes que promovem o cancro, abrindo a porta a uma nova geração de terapias potencialmente mais curtas e menos desgastantes para os doentes.
O trabalho, publicado na revista científica Nature Cell Biology, centra-se na chamada terapia epigenética, uma abordagem em que os doentes tomam fármacos capazes de alterar a forma como os genes são ligados ou desligados. Este mecanismo permite repor alterações nocivas causadas por mutações associadas ao cancro, quase como um botão de reset. Segundo a universidade australiana, esta estratégia poderá “resultar em períodos de tratamento mais curtos e reduzir drasticamente os efeitos secundários debilitantes que muitas vezes acompanham o tratamento oncológico”.
A investigação foca-se em algumas formas agressivas de leucemia aguda causadas por um erro genético que interfere com o sistema normal de controlo dos genes da célula, e que mantém ligados, de forma permanente, os genes que alimentam o cancro. Já existem fármacos dirigidos a este processo, mas até agora não se sabia exatamente porque funcionavam.
A equipa liderada por Omer Gilan, investigador sénior da School of Translational Medicine e do Australian Centre for Blood Diseases, concluiu que ao visar proteínas epigenéticas específicas é possível desligar de forma duradoura os genes que alimentam o cancro nas células da leucemia. “Identificámos potencialmente uma nova forma de explorar as fraquezas do cancro”, afirma Omer Gilan, que sublinha que “a parte mais entusiasmante é que os clínicos podem aproveitar estas descobertas para melhorar a resposta e reduzir os efeitos secundários para os doentes”.
“Qualquer pessoa que tenha visto alguém de quem gosta passar por um tratamento oncológico sabe como é difícil, por isso tornar os tratamentos mais fáceis de suportar e mais eficazes é absolutamente vital”, acrescenta o investigador.
O primeiro autor do artigo, o doutorando Daniel Neville, explica que o avanço tira partido da “memória” fornecida pela proteína epigenética DOT1L nas células cancerígenas. A Menin, uma proteína que ajuda a regular a atividade dos genes e que, nestas leucemias, é usada para manter ativos os genes do cancro, torna-se aqui um alvo terapêutico. “Os fármacos que usamos para atingir a Menin apagam a memória fornecida pela DOT1L e continuam a matar as células cancerígenas mesmo depois de o tratamento terminar”, afirma. Para o investigador, reduzir a duração da terapêutica pode permitir que “os doentes tolerem doses mais altas ou sejam elegíveis para terapias adicionais, melhorando os resultados”.
“Este é um grande passo em frente para a terapia epigenética, que esperamos que mude a forma como o cancro é tratado de forma mais geral”, sublinha. A descoberta deverá agora avançar para a fase clínica, estando previsto um ensaio clínico ainda este ano.
