A assistência do Centro Social foi intensificada, sobretudo, junto dos 80 idosos que mais sofreram com a tempestade que atingiu “drasticamente” a povoação.
Depois do primeiro “embate”, e devido à falta de telhas ou barrotes, a chuva persistente, a humidade e o frio danificaram seriamente os quartos de dormir, degradando a qualidade de vida dos habitantes.
“Foi preciso retirar os colchões, porque foram para o lixo. A roupa de cama que pode ser ainda aproveitada está a ser recuperada, e temos de fazer a limpeza da roupa diária da população afetada, a maior parte idosos”, disse Georgina Pereira, a assistente social, de 52 anos.
“Neste momento, continuamos a apoiar os utentes e a ajudar nas limpezas, sobretudo na lavandaria, porque muitos ficaram sem telhas e as camas ficaram encharcadas”, acrescentou.
Um mês depois, parte da aldeia tem eletricidade e água, as telecomunicações são deficientes, as árvores cortadas estão amontoadas junto às estradas e os estragos nas casas continuam a afetar a vida da população.
Na Rua da Pedra, o Centro de Dia de Casal dos Bernardos, ao lado da junta de freguesia, sofre infiltrações, mas as máquinas de lavar e de secar estão constantemente a funcionar para que os mais idosos possam ter roupa limpa.
“Só espero que as ‘minhas máquinas’ não se avariem e que não falhe a luz e que não entre mais água aqui dentro. Passamos os dias inteiros aqui na lavandaria a lavar cobertores, colchas e edredões e as toalhas que foram usadas para ‘chupar’ a água. Tem sido este o nosso dia a dia”, explica a assistente social.
Quando as máquinas param por falta de eletricidade, a roupa é lavada à mão.
Nas traseiras do edifício, também há roupa a secar num estendal debaixo de um telheiro e os colchões estragados foram empilhados num descampado.
A freguesia não dispõe de Centro de Saúde nem de médico de família e muitas receitas médicas ficaram destruídas.
O Centro de Dia decidiu, assim, organizar a situação dos doentes da aldeia procurando as prescrições nos centros de saúde instalados nas freguesias vizinhas e distribuindo os medicamentos “casa a casa”.
“Levamos a caixa com os medicamentos para eles andarem equilibrados e assim sabemos se estão de facto a medicarem-se com os remédios que têm de tomar”, disse Georgina Pereira.
A higiene pessoal dos utentes tem sido garantida com panelas de água quente e “banhos de cafeteira”, porque a força da água não permite sempre o uso do chuveiro.
Nos primeiros dias, a limpeza das casas sem telhas “foi inglória”, porque cada vez que as funcionárias limpavam as casas, a chuva “estragava tudo outra vez”.
Georgina Pereira disse ainda que o quotidiano foi garantido pela “interajuda”, até porque a freguesia, com cerca de 800 habitantes, tem uma população “com pessoas de oitenta e de noventa anos”.
O trabalho das funcionárias é “incansável”, diz a assistente social, denunciando cansaço face a “uma luta” constante que se arrasta há um mês.
“Eu não sei como são os traumas da guerra, mas às vezes em casa ouço o vento e penso que há qualquer coisa que vai cair outra vez. Se eu sinto isto, imagino o que passam as pessoas que estão toda a noite sem ninguém, sem telefone e sem apoio e nós só vamos conseguir chegar lá por volta das 11:00 da manhã”, desabafa.
No mês passado, a agência Lusa esteve no mesmo local: as infiltrações na cozinha do Centro de Dia eram constantes, os fogões funcionavam a gás e depois através da ajuda de um gerador.
Helena Pontes, de 60 anos, coordena a cozinha desde o primeiro dia e, apesar de os fogões estarem a funcionar a eletricidade, e de já “não cair água”, o caos continua.
“Não vamos parar de mandar comida aos mais velhos e às crianças”, disse a cozinheira.
O almoço vai ser sopa de feijão verde, batata assada no forno e peixe, para as crianças, e para os utentes mais idosos maruca cozida com ovo, batata, couve e cenoura.
Nos próximos dias, “logo se verá o que há na ementa”, como o estado do tempo na região centro de Portugal, que “continua instável”.
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