Portugal

Combate à pobreza em Portugal tem sido "lento" e com casos de retrocesso

No seu mais recente relatório sobre Pobreza e Exclusão Social, a que a Lusa teve acesso, a Cáritas salienta, tendo por base dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), que em 2025 mais de um milhão de pessoas vivia em situação de privação material e social, “das quais cerca de 460 mil em privação severa”.

“Cerca de 200 mil pessoas não tinham capacidade económica para ter uma alimentação adequada, cerca de 600 mil não tinham capacidade para comprar roupa nova, quase um milhão não tinha meios para gastar uma pequena quantia consigo e mais de 1,6 milhões não conseguia manter a casa devidamente aquecida”, refere a organização católica de apoio social no relatório.

Apesar de admitir que “nos últimos anos, tem havido alguma evolução favorável nestes indicadores, mas demasiado lenta”, a Cáritas salienta que em casos de “exclusão mais profunda” tem-se registado um retrocesso, dando como exemplo o número de pessoas a viver em situação de sem-abrigo, “que mais do que duplicou entre 2019 e 2024”.

O relatório indica que, no global, todos os indicadores apontam para “algum progresso na luta contra a pobreza nos últimos anos, embora a um ritmo muito inferior ao observado nos anos anteriores à pandemia”, mas defende, por outro lado, que é preciso “desconstruir a ideia muitas vezes repetida de que o número de pobres em Portugal se mantém inamovível em torno de dois milhões [de pessoas] “.

“É verdade que em 2025 o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social se situava em cerca de dois milhões, mas esse número ascendia a 2,7 milhões em 2015”, alerta, defendendo que “é importante ser transparente nos conceitos” no momento da análise.

Em termos de contexto europeu, a Cáritas aponta que “Portugal encontra-se numa posição intermédia em termos de prevalência da pobreza e da privação”, mas “ainda muito distante” da realidade dos países europeus que estão mais próximos de erradicar a pobreza.

“Vários destes países têm níveis de rendimento análogos aos da economia portuguesa, mas têm políticas e instituições – nomeadamente na participação no mercado de trabalho, na educação, na habitação social, no alcance da política redistributiva e na coesão territorial – que contribuem para uma menor pobreza e exclusão social”, aponta a Cáritas.

A organização defende, por isso, que “é urgente um novo impulso na luta contra a pobreza e a exclusão em Portugal” e avisa que os objetivos definidos na Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 “não serão alcançáveis com as atuais tendências”.

“A taxa de risco de pobreza caiu 0,8 pontos percentuais (p.p.) entre 2019 e 2024, mas precisaria de cair 5,4 p.p. adicionais até 2030 para cumprir o objetivo da estratégia. A taxa de risco de pobreza dos trabalhadores caiu 0,9 p.p. entre 2019 e 2014, mas ainda dista 3,6 pp do objetivo oficial”, exemplificou.

Acrescenta que esta evolução ocorreu num contexto de crescimento da economia, com aumento da taxa de emprego, dos salários reais, das pensões e das transferências sociais.

“Não estão assim criadas as condições estruturais para cumprir a ambição da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza”, conclui.

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