Economia

Como era Portugal e o resto do mundo em 1972: o ano da última viagem do Homem à Lua?

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Desde então, o mundo deu uma volta de 180 graus, com avanços significativos, mas também com alguns retrocessos que desafiam conquistas alcançadas nas últimas décadas. Mas como era a realidade em 1972, na última vez que o ser humano foi à Lua?

A última missão tripulada do programa Apollo

Pouco tempo depois de a Europa se ter visto mergulhada nos horrores da Segunda Guerra Mundial, um novo conflito, protagonizado pelas duas grandes potências da época, os Estados Unidos e a União Soviética, voltou a bater à porta: a Guerra Fria. Com ela nasceu um dos principais episódios que marcaram o século XX: a corrida espacial.

A sexta e última missão teve lugar a 7 de dezembro de 1972, com a Apollo 17, que detém ainda o recorde de permanência na superfície lunar, com cerca de 75 horas. O programa acabou por ser encerrado por falta de financiamento e falta de interesse público.

Na altura, o comandante Eugene A. Cernan, o piloto do módulo de comando Ronald E. Evans e o piloto do módulo lunar Harrison H. Schmitt, o primeiro astronauta cientista a pisar a Lua, foram os grandes protagonistas da última missão em que seres humanos viajaram para além da órbita terrestre.

O início do Watergate: o escândalo que abalou os EUA

A 7 de novembro de 1972, o republicano Richard Nixon foi reeleito Presidente dos Estados Unidos, derrotando o democrata George McGovern. No entanto, o esse segundo mandato ficou marcado por um dos maiores escândalos da história política norte-americana: o caso Watergate. A polémica rebentou e rapidamente transformou o verão desse ano num dos mais tensos e conturbados da vida política dos Estados Unidos.

Tudo começou a 17 de junho, quando cinco homens foram detidos pela polícia numa tentativa de colocar escutas no interior da sede do Comité Nacional Democrata, instalada no complexo Watergate, em Washington, D.C. Cerca de um mês antes, quatro deles já tinham participado num primeiro arrombamento, ocorrido a 28 de maio de 1972.

A prisão dos cinco indivíduos foi noticiada no dia seguinte pelo The Washington Post, o que acabou por expor uma rede de espionagem política que viria a abalar profundamente a administração norte-americana. Os jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward descobriram que os suspeitos tinham ligações à CIA e que um deles, James McCord, era chefe de segurança da campanha de reeleição do Presidente republicano.

A administração Nixon negou inicialmente qualquer envolvimento no assalto, com o próprio Presidente a fazê-lo em agosto de 1973, numa transmissão televisiva perante milhões de norte-americanos. No entanto, investigações jornalísticas e judiciais revelaram um esforço de encobrimento por parte da Casa Branca, incluindo destruição de provas e pressão sobre organismos oficiais.

A 9 de agosto de 1974, dois anos após o início do escândalo Watergate, Richard Nixon tornou-se o primeiro presidente na história dos Estados Unidos a demitir-se. A decisão foi anunciada diretamente da Sala Oval, num discurso transmitido em simultâneo pela televisão e pelo rádio, motivada pela convicção de que seria alvo de um processo de impeachment e acabaria por ser destituído do cargo.

O massacre de Munique nos Jogos Olímpicos

A 5 de setembro de 1972, durante a segunda semana Jogos Olímpicos de Munique, 11 atletas e treinadores da equipa olímpica de Israel foram assassinados por um comando terrorista palestiniano, denominado “Setembro Negro”.

Conhecido como o “Massacre de Munique”, o ataque ocorreu numa altura em que o país se encontrava dividido em dois Estados: a RFA – República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental), onde se situava a cidade de Munique, e a RDA – República Democrática Alemã (Alemanha Oriental).

A falta de segurança adequada por parte do Comité Olímpico Organizador da Alemanha Ocidental, destinada a evitar um evento desportivo excessivamente militarizado que lembrasse os Jogos Olímpicos de Berlim (1936) sob a liderança de Adolf Hitler, permitiu que oito membros da organização terrorista se infiltrassem na Vila Olímpica, matassem dois membros da delegação israelita e sequestrassem outros nove em dois apartamentos onde estavam alojados.

Os terroristas exigiam a libertação de 234 prisioneiros palestinianos e de dois militantes alemães. Após horas de negociações sem sucesso, os sequestradores transportaram os reféns de helicóptero para a base aérea de Fürstenfeldbruck. Uma tentativa de resgate falhada pela polícia alemã terminou em tragédia: morreram 17 pessoas, incluindo todos os nove reféns israelitas, um polícia e cinco dos terroristas.

O atentado foi acompanhado por mais de 900 milhões de pessoas, graças à emissão em direto da cadeia de televisão ABC, sendo a primeira transmissão televisiva em direto de um ataque terrorista durante os Jogos Olímpicos.

O desastre aéreo da Cordilheira dos Andes

A 13 de outubro de 1972, o voo 571 da Força Aérea Uruguaia que transportava 45 pessoas incluindo os pilotos, a equipa de râguebi Old Christians Club” , amigos e familiares despenhou-se no Monte Seler, na Cordilheira dos Andes, durante uma viagem entre o Uruguai e o Chile.

Das 45 pessoas a bordo, 12 morreram imediatamente na sequência da queda e outras seis nos dias seguintes. Os sobreviventes que, ao mesmo tempo que lutavam para garantir a própria sobrevivência e lidavam com ferimentos graves, enfrentavam condições extremas, com temperaturas a atingir 30 graus negativos e ar rarefeito.

À medida que os dias passavam, um dos maiores problemas começou a tornar-se evidente: a fome. Inicialmente, os sobreviventes conseguiam manter alguma alimentação com os snacks que traziam nas malas ou com o serviço de bordo do avião. Quando estas reservas acabaram, o grupo teve de enfrentar a difícil decisão de recorrer ao canibalismo para se manter vivo.

No 17.º dia após o acidente, uma avalanche atingiu o local onde o avião tinha despenhado, soterrando parte do grupo enquanto todos dormiam. Dos poucos que tinham conseguido sobreviver até aquele dia, oito acabaram por morrer, permanecendo soterrados durante três dias.

O resgate dos sobreviventes só ocorreu em dezembro, cerca de dois meses após a queda do avião, depois de dois elementos do grupo terem iniciado uma caminhada de 10 dias pela Cordilheira dos Andes em busca de ajuda. Dos 45 passageiros, apenas 16 conseguiram sobreviver ao longo de mais de 70 dias, à mercê do destino.

Portugal sob a sombra do Estado Novo

Em 1972, Portugal já dava alguns sinais de mudança rumo à liberdade com que muitos sonhavam, embora poucos acreditassem que estivesse tão próxima.

Ainda assim, o país continuava sob o regime do Estado Novo. Américo Tomás foi reeleito Presidente da República nesse ano, enquanto Marcello Caetano se mantinha como primeiro-ministro, tendo sucedido a António de Oliveira Salazar em 1968.

Foi um ano marcado pelo intensificar da contestação social contra o regime. A Guerra Colonial continuava a assombrar o país, mais de uma década após o seu início, enquanto a repressão política se mantinha e as críticas, tanto internas quanto internacionais, se fortaleciam.

A revolta estudantil de 1972

Foram vários os episódios que marcaram o ADN português nesse ano. Um dos mais marcantes esteve ligado ao movimento estudantil, que ganhou força a 16 de maio, na sequência da invasão da polícia de choque ao Instituto Superior Técnico e ao então Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF).

O movimento estudantil contra o Governo teve uma figura central: José António Ribeiro Santos, estudante de Direito de 26 anos, assassinado por um agente da PIDE/DGS a 12 de outubro de 1972, num anfiteatro do ISCEF, devido à sua oposição ao regime do Estado Novo.

O período que antecedeu e se seguiu ao funeral ficou marcado por confrontos e manifestações, dos quais resultaram feridos e detenções, com repercussões que se prolongaram no tempo.

A vigília da Capela do Rato

Nos anos que antecederam o 25 de Abril de 1974, a guerra colonial e a repressão imposta pela ditadura do Estado Novo eram os principais motivos de revolta na sociedade portuguesa.

Um dos episódios mais marcantes dessa oposição ocorreu a 30 de dezembro de 1972, com a Vigília da Capela do Rato, em Lisboa. Um grupo de católicos progressistas organizou uma vigília e jejum pela paz, em protesto contra a guerra nas colónias africanas, que Portugal travava desde 1961. A polícia de choque interrompeu a vigília no dia seguinte, após invadir a capela e deter cerca de 50 pessoas.

O episódio teve repercussões políticas imediatas nos dias seguintes: originou um debate acesso na Assembleia Nacional entre o deputado Casal-Ribeiro, defensor do regime, e o deputado Miller Guerra, da Ala Liberal, que defendia a liberdade de pensamento e de expressão e acabaria por renunciar ao cargo no mês seguinte.

“As Três Marias”

Na área da cultura, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, mais conhecidas como “As Três Marias” publicaram a obra “Novas Cartas Portuguesas”, na qual denunciava a repressão no país e a falta de liberdade e direitos das mulheres.

O livro foi apreendido pela censura três dias após a sua publicação e levou as autoras a tribunal cerca de um ano depois, acusadas de atentado à moral pública, tendo sido absolvidas após o 25 de abril.



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