Portugal

Crise financeira e de identidade lidera preocupações dos jornalistas

Elaborado pela professora catedrática do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho Felisbela Lopes, o inquérito – a que a agência Lusa teve hoje acesso – evidencia, segundo a autora, a urgência de “uma maior celeridade na concretização e expansão dos eixos 3 e 4 do Plano de Ação para a Comunicação Social, lançado pelo anterior Governo de Luís Montenegro em 2024”.

O plano prevê, nestes eixos, mecanismos de apoio à sustentabilidade económica do setor, à valorização das condições laborais dos jornalistas e à adaptação das organizações mediáticas aos desafios tecnológicos e digitais que marcam o ecossistema jornalístico.

“Estes dois constrangimentos impõem que pensemos de forma mais séria o financiamento dos media, porque já percebemos que o atual modelo de negócio não tem continuidade. E se há um plano pensado para estes vetores, convém que as medidas apareçam e sejam aplicáveis a curto prazo”, salientou Felisbela Lopes em declarações à Lusa.

A este propósito, a professora catedrática destacou que o plano de ação do Governo “está mais direcionado para os media regionais e locais, mas convém incorporar também os media nacionais”.

No inquérito, 100 jornalistas portugueses de diferentes meios de comunicação social nacionais e com perfis distintos foram questionados (entre dezembro de 2025 e março de 2026) sobre “quais os maiores constrangimentos à liberdade de imprensa que os jornalistas portugueses enfrentam hoje”, a mesma pergunta que Felisbela Lopes tinha já colocado, há 10 anos, a também uma centena destes profissionais e que deu, então, origem ao livro “Jornalista, Profissão Ameaçada”.

“Hoje as preocupações são mais numerosas e mais intensas”, salienta, considerando que, se há 10 anos a profissão estava “ameaçada”, hoje pode dizer-se que “está no fim da linha, no limiar do precipício”.

À pergunta lançada, e agregando os dois primeiros constrangimentos referidos em cada resposta, a crise financeira dos grupos de media, a precariedade laboral e a crise de identidade do jornalismo surgem como os maiores constrangimentos apontados, com 48, 33 e 27 referências, respetivamente.

Seguem-se os constrangimentos tecnológicos, nomeadamente a inteligência artificial (14 referências), a desinformação (13 referências), a pressão das fontes (12 referências), as redes sociais (11 referências), a pressão do tempo (nove referências), as influências políticas (sete referências), a pressão das audiências (cinco referências), a autocensura (quatro referências), os processos judiciais (três referências) e a coação física e a falta de literacia (ambas com uma referência).

Destacada como o maior problema do setor, a crise dos media torna, segundo a autora, “difícil assegurar um jornalismo de qualidade”, num contexto em que “muitas empresas jornalísticas enfrentam dificuldades em garantir a sua sustentabilidade económica” e operam “sem os necessários recursos financeiros”.

“Os projetos editoriais tornam-se mais vulneráveis e a sua independência pode ficar comprometida”, refere Felisbela Lopes, salientando que “vários jornalistas alertam que a crise financeira afeta não só os media, como também tem consequências para a vitalidade da democracia”, já que “menos jornalismo significa menor fiscalização do poder, menos investigação traduz-se em menor transparência, menos pluralismo resulta numa menor diversidade de opiniões”.

A precariedade laboral é o segundo maior constrangimento apontado, manifestando-se sobretudo em “salários baixos, contratos instáveis, trabalho a recibos verdes e falta de estabilidade profissional”.

“Muitos jornalistas referem que a profissão é pouco atrativa, levando à saída dos mais experientes”, estando a precariedade “também associada à redução do número de profissionais nas redações” e a uma fragilização da independência editorial.

Como terceira grande preocupação entre os jornalistas surge a “crise de identidade” da profissão, “marcada pela perda de credibilidade, de valores profissionais e de reconhecimento social”.

“Muitos consideram que a profissão está a perder o seu papel essencial como mediadora entre os factos e os cidadãos”, refere Felisbela Lopes, explicando que na base desta situação está “a disseminação de desinformação nas redes sociais e a ideia de que qualquer pessoa pode produzir conteúdos informativos”, o que “leva à confusão entre jornalistas, comentadores, influenciadores e outros produtores de conteúdos, fragilizando o estatuto profissional dos jornalistas”.

“Quando o seu papel é desvalorizado, a verdade dos factos perde espaço para opiniões, perceções e narrativas manipuladas, colocando em risco a qualidade da informação noticiosa e o funcionamento da democracia”, enfatiza.

Neste contexto, Felisbela Lopes defende a criação de “uma instância com poderes públicos definidos por lei” que garanta “uma definição apurada e blindada de regras éticas e profissionais”, estabelecendo, desde logo, “quem está habilitado a exercer a profissão”.

“Não sei se a criação de uma ordem profissional é o caminho. O que sei é que precisamos de conferir uma maior identidade à profissão”, sustenta.

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