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Entrevista online
A vida extraterrestre pode não precisar de água líquida, pode não produzir oxigénio e pode nem sequer ser verde. Novos estudos sobre exoplanetas estão a alargar o conceito de habitabilidade e a admitir que os primeiros sinais de vida fora da Terra poderão ser muito diferentes do que sempre imaginámos.
Ilustração do planeta TOI 700 d, o primeiro planeta do tamanho da Terra que se encontra numa zona habitável, descoberto pela sonda TESS da NASA.
NASA’s Goddard Space Flight Center/Chris Smith (USRA) / HANDOUT
O filme Projeto Hail Mary, protagonizado por Ryan Gosling, parte de uma ideia clássica da ficção científica: a existência de vida noutros sistemas estelares.
Mas, apesar do ponto de partida ficcional, alguns dos cenários levantados aproximam-se de questões reais que hoje estão a ser estudadas pelos astrónomos.
A astrofísica e astrobióloga Lisa Kaltenegger, diretora do Carl Sagan Institute (CSI) da Universidade Cornell, sublinha que os sistemas estelares referidos na história continuam, para já, sem confirmação da existência de planetas:
“Será que Tau Ceti tem planetas? Em Projeto Hail Mary a personagem de Ryan Gosling viaja até lá, a 12 anos-luz de distância, para salvar a Terra. Mas até agora não há provas inequívocas da existência de planetas neste sistema estelar, embora nós, astrónomos, ainda estejamos à procura. Isto pode, claro, ser uma boa notícia para a humanidade, porque assim o Astrofago fictício que ameaça a humanidade na história não terá evoluído”.
A especialista em exoplanetas acrescenta que o mesmo se aplica a outro sistema referido:
“No filme, outra nave chega ao sistema vinda de 40 Eridani A, uma estrela laranja num sistema triplo a cerca de 16 anos-luz de distância. Até agora, também não há sinal inequívoco de planetas ali”.
Mais planetas, mais hipóteses de vida
NASA
“A nossa investigação mais recente aponta para uma diversidade fascinante de exoplanetas que podem albergar vida. Os 45 planetas que identificámos orbitam na zona habitável das suas estrelas, onde poderia existir água líquida”, explica Kaltenegger.
A chamada “zona habitável” corresponde à região em torno de uma estrela onde as temperaturas permitem a existência de água líquida à superfície. Durante décadas, este foi o principal critério na procura de vida.
Mas esse conceito está a mudar.
A vida pode não precisar de água
“O conceito de habitabilidade está, de facto, a expandir-se rapidamente. No geral, assumimos que a vida só poderia existir em água líquida, mas há imensas linhas de investigação que exploram solventes alternativos”.
Entre esses solventes estão o metano, presente em mundos como Titã, o amoníaco e até o ácido sulfúrico concentrado.
“Isso não significa que sabemos que a vida existe nesses ambientes, mas mostra que, do ponto de vista químico, pode haver mais possibilidades do que imaginávamos”, salienta Lígia Coelho.
Este alargamento muda o foco da procura: em vez de procurar apenas água, os cientistas procuram condições que permitam reações químicas complexas.
Lígia Fonseca Coelho
Ryan Young/Cornell University
Vida sem água… mas não como a conhecemos
Na Terra, toda a vida depende de água. Assim, qualquer outro microrganismo que sobreviva de outra forma terá de ser necessariamente diferente do que conhecemos.
“Quando falamos de vida noutros planetas, temos de admitir que ela pode ser fundamentalmente diferente. Se existir noutro solvente, terá bioquímica, estruturas celulares e mecanismos de funcionamento distintos dos que conhecemos”.
Ainda assim, a própria Terra dá pistas importantes. Existem microrganismos capazes de sobreviver em ambientes extremamente secos, porque produzem a sua própria água.
“Por exemplo, bactérias que oxidam hidrogénio, presentes nos solos desérticos e até na atmosfera, conseguem gerar energia e pequenas quantidades de água líquida, suficientes para se manterem ativas durante períodos prolongados. Isto sugere que, mesmo em ambientes aparentemente áridos, podem existir estratégias biológicas para contornar a escassez de água.”
Outra ideia que está a mudar é a aparência da vida noutros planetas.
Na Terra, o verde domina devido à clorofila. Mas esse não é o único modelo possível, outros pigmentos são possíveis – existem microrganismos que utilizam pigmentos diferentes e que, em determinadas condições, poderiam dominar um planeta inteiro.
É a hipótese explorada por Lígia Fonseca Coelho, no estudo publicado em 2024 sobre bactérias que que recebem pouca ou nenhuma luz visível ou oxigénio pelo que têm de usar radiação infravermelha invisível para alimentar a fotossíntese e que por isso são roxas.
Para os cientistas, isto significa que procurar vida extraterrestre exige abandonar referências exclusivamente terrestres.
Como detetar vida à distância
A deteção de vida fora da Terra baseia-se hoje em dia em bioassinaturas, indícios indiretos de atividade biológica.
Segundo Lígia Coelho, há três grandes abordagens:
“Em primeira instância, com a tecnologia atual, estudamos a composição das atmosferas de outros planetas, procurando gases como o metano ou o oxigénio que, quando coexistem fora de equilíbrio químico, podem sugerir atividade biológica”.
Nos próximos anos, o foco deverá alargar-se.
“Preparamo-nos para conseguir observar a superfície desses mundos, daqui a 5 ou 6 anos, com o Extremely Large Telescope da ESO em busca de sinais mais diretos, como pigmentos, por exemplo, a clorofila, que alteram a forma como a luz da superfície é refletida”.
E há ainda uma nova linha de investigação:
“A deteção de assinaturas espectrais de biomassa na própria atmosfera procurando o efeito coletivo de microrganismos em suspensão, como demonstrado pelo nosso trabalho recente (Coelho et al., 2025) o primeiro a apresentar esta abordagem”.
Ainda assim, nenhum destes sinais é conclusivo por si só.
“O verdadeiro avanço, no entanto, virá da combinação destes sinais. Isoladamente, nenhum constitui uma prova definitiva de vida, mas, em conjunto, podem construir uma evidência muito mais sólida e convincente”.
Lisa Kaltenegger, Carl Sagan Institute
Estamos mais perto de encontrar extraterrestres?
A resposta continua incerta, mas o caminho está mais claro.
Hoje, os cientistas sabem que:
- a vida pode não depender exclusivamente de água
- pode ter bioquímicas diferentes
- pode produzir sinais inesperados
E isso obriga a repensar toda a estratégia de busca por outras vidas.
“E como ilustra tão bem o ‘Projeto Hail Mary’, a vida pode ser muito mais versátil do que imaginamos atualmente. Por isso, descobrir qual dos 6.000 exoplanetas conhecidos teria maior probabilidade de albergar ‘Astrofago’ e ‘Taumoeba’ – ou ‘Rocky’ – pode ser crucial, e não apenas para Ryan Gosling”, conclui Lisa Kaltenegger.
