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É possível apostar na energia nuclear em Portugal?


SIC Verifica

O tema foi recentemente alvo de discussão no Parlamento. Pedro Pinto, do Chega, abordou o tema, já a ministra da Energia considerou que investir na energia nuclear “não faz sentido” face à dimensão do investimento e nas redes sociais as dúvidas multiplicam-se. Seria possível apostar nesta energia em Portugal? A SIC Verifica.

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Em declarações aos jornalistas em Guimarães, à margem da sessão de apresentação da Capital Verde Europeia, Maria da Graça Carvalho disse que a aposta na energia nuclear será importante para países que têm “menos sol, menos vento e menos hídrica” e, portanto, menor potencial renovável, mas, em Portugal, essa aposta “não faz sentido”.

“Para a energia nuclear, é preciso um investimento inicial bastante elevado, que, portanto, no nosso caso não faz sentido. Nós temos muito potencial renovável, já o investimos e, portanto, a nossa aposta deverá ser nas renováveis“, indicou.

Também nas redes sociais, o tema continua a gerar discussão. Há quem, neste sentido, questione até a ministra por dizer que “não faz sentido” enquanto o país se mantém dependente de energia de Espanha “que é gerada por centrais a carvão e nuclear”.

Porque não se discute a produção de energia nuclear em Portugal?“, sugere-se numa outra publicação.

No dia 10 de março, a presidente da Comissão Europeia anunciou uma garantia de 200 milhões de euros para apoiar investimento privado em tecnologias nucleares inovadoras, visando evitar “as vulnerabilidades” verificadas com a importação de gás e petróleo do Médio Oriente.

“Precisamos de mobilizar investimento e hoje posso anunciar que criaremos uma garantia de 200 milhões de euros para apoiar o investimento privado em tecnologias nucleares inovadoras. Os recursos virão do Sistema de Comércio de Emissões [para] não só reduzirmos o risco dos investimentos nestas tecnologias de baixo carbono, como também queremos enviar um sinal claro para que outros investidores se juntem”, declarou Ursula von der Leyen.

Ursula Von der Leyen considerou ainda que “a Europa cometeu um erro estratégico ao afastar-se de uma fonte de energia fiável e acessível, com baixas emissões” e deve agora corrigir esse caminho.

Ursula von der Leyen

Yves Herman/Reuters

Será que em Portugal seria possível apostar nesta energia?

A ministra tem razão quando diz que o investimento seria elevado. Em entrevista à SIC, João Cruz, professor da faculdade NOVA FCT doutorado em Física Nuclear, explica que o “custo de um reator nuclear, de um único reator nuclear, ronda os 15, 20 mil milhões de euros” e a sua construção não é imediata.

No mesmo sentido aponta Bruno Soares Gonçalves, especialista em energia nuclear e presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN) e responsável pelo Grupo de Engenharia e Integração de Sistemas do IPFN que sublinha que o “investimento inicial no nuclear é elevado”.

“Para Portugal avançar sozinho parece-me ser um custo bastante elevado. Porque em princípio seria necessário mais do que um reator nuclear. Obviamente grandes projetos podem beneficiar se houver vários países a participar. Por exemplo, Portugal, Espanha, França, isso seria um consórcio europeu que permitiria que os custos se diluíssem e não ficassem retidos num único país”, explica João Cruz, considerando que a solução poderia passar por um consórcio europeu.

O presidente do IPFN acrescenta que, além disso, o custo também dependeria de qual a opção, nomeadamente se passa “por grandes reatores nucleares ou pelos chamados pequenos reatores modulares, em que o custo de investimento poderá ser menor e poderá ser mais faseado no tempo”.

No entanto, e apesar do custo, os benefícios de ter uma energia em Portugal desta natureza poderiam compensar uma vez que esta é “bastante competitiva”.

Bruno Soares Gonçalves afirma que “é preciso avaliar qual a necessidade e se encaixa naquilo que são as ambições do país” e, depois “do ponto de vista estratégico, avaliar face àquilo que são as ambições económicas”.

O especialista considera que deve ser feito “um estudo de custos totais do sistema, que tenha em conta os vários portfólios possíveis e ver com esse estudo quais são as soluções que garantem o menor preço para as empresas e para as famílias.

As vantagens

“A energia nuclear tem uma grande vantagem porque tem uma grande densidade de potência, portanto, um único reator nuclear consegue fornecer tipicamente uma cidade como a Grande Lisboa. Depois a sua utilização também é barata em termos de funcionamento“, explica João Cruz.

Uma outra que “não podemos ignorar”, segundo Bruno Soares Gonçalves, “é a resiliência que tem ao aumento do preço de combustível”.

Abdul Saboor

“Nos custos operacionais de uma central nuclear, o urânio, ou combustível nuclear utilizado, representa apenas 10% dos custos operacionais, o que quer dizer que um aumento no combustível tem um impacto pequeno nos custos operacionais, o que torna o nuclear bastante resiliente. Por outro lado, cada reator não usa uma quantidade significativa de combustível. É fácil de armazenar, o que permite manter reservas estratégicas por períodos relativamente longos”, detalha.

João Cruz aponta ainda que, apesar de termos ao nosso dispor energias renováveis, estas são “intermitentes”, pelo que não garantem estabilidade. A nuclear seria uma fonte de energia que poderia ser complementar à renovável e garantiria também uma maior independência dos combustíveis fósseis.

E riscos?

Quanto aos riscos, João Cruz afirma que esta “é uma área muitíssimo regulamentada” através da própria Agência Internacional de Energia Atómica, a agência das Nações Unidas que define muitos dos critérios de funcionamento e de segurança destes sistemas.

No que diz respeito a uma central nuclear, o professor explica que o nível de radiação a que uma pessoa estaria exposta se vivesse próxima de uma “é 10 mil vezes inferior ao máximo permitido pela lei”.

“A comida que ingerimos tem 3 mil vezes mais radiação do que a radiação que nós receberíamos por viver ao lado de uma central nuclear”, acrescenta.

João Cruz sublinha que nos últimos 70 anos, a energia nuclear “evoluiu muitíssimo” e “agora é uma tecnologia muito segura”. E, conclui, “tanto é segura que a Agência Internacional de Energia Atómica, que é uma agência regulada pelas Nações Unidas, está intimamente ligada à construção de centrais nucleares”.

A SIC Verifica que é…

A energia nuclear é entendida por especialistas como benéfica, segura e necessária como complemento às energias renováveis e combustíveis fósseis (para evitar dependência destas). Os custos de um reator nuclear ascendem a 20 mil milhões de euros, mas a solução poderia passar, por exemplo, por um consórcio europeu para diluir os investimentos.

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