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Texto de João Cardoso, psiquiatra. A esquizofrenia é uma síndrome complexa, que afeta o comportamento e a capacidade cognitiva dos doentes. Hoje sabemos que se deve a alterações do neurodesenvolvimento, em que participam causas genéticas e ambientais (meio sócio económico, família, migração, etc).
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Podemos dividir os sintomas em 3 grandes grupos:
Sintomas positivos (aquilo que surgiu com a doença): as alucinações, as ideias delirantes e a alteração da organização do pensamento, aquilo que se denomina sintomas psicóticos. Normalmente são os sintomas que preocupam mais quem rodeia as pessoas com esquizofrenia, porque podem ser acompanhados (nem sempre) de agitação e podem levar o doente a colocar-se em perigo. No entanto tendem a remitir ou a tornar-se residuais com o tempo.
Sintomas negativos (coisas que se perderam): são os sintomas menos exuberantes, mas os mais importantes da esquizofrenia. São a diminuição da iniciativa e da vontade em participar ou fazer atividades, o isolamento social e diminuição do discurso espontâneo.
Sintomas cognitivos: as pessoas com esquizofrenia tendem a ter piores resultados em múltiplos testes cognitivos, o que limita a capacidade de participação na vida da sociedade.
Embora os sintomas positivos sejam os que a maioria da população identifica como parte da síndrome, são os sintomas negativos e cognitivos que têm um maior impacto na vida das pessoas com esquizofrenia.
Números da doença
Infelizmente não temos dados concretos da prevalência da doença na população portuguesa. Normalmente a esquizofrenia tem a sua apresentação inicial entre os 16 e os 30 anos, sendo que nos homens o início é mais precoce (ainda na adolescência início da idade adulta) que nas mulheres (mais perto dos 30 anos). Por vezes existe uma diferença de tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico.
Na verdade, existem várias manifestações da mesma doença, mas o mais importante é que, tal como todas as doenças, quanto mais tempo estiver sem tratamento, piores os resultados futuros, e maiores os défices registados.
Os fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença são inúmeros e ainda não se pode afirmar que exista um motivo em concreto que leve ao aparecimento da doença. No entanto, sabemos que existe uma predisposição genética para a doença, mas que não é o suficiente para o aparecimento da mesma. É uma combinação entre predisposição genética e fatores do meio ambiente: consumo de canabinóides, stress, migração (risco é maior na primeira e segunda geração), meio socioeconómico baixo, fatores pré e perinatais, crescer e viver em meio urbano, entre outros.
Maior desafio
O maior desafio na identificação da doença, é o atraso no diagnóstico, e aí o estigma desempenha um papel determinante. Como a doença tem normalmente início em idades jovens, muitos dos comportamentos iniciais mais bizarros são tidos como alterações próprias de personalidades que estão em desenvolvimento.
É difícil para a pessoa que está doente ter crítica para a sua doença, no entanto os familiares também adiam a ida à consulta porque assim terão que se confrontar com o facto de que os seus familiares têm uma doença mental. Outro dos desafios é a distinção de outras doenças que também se manifestam com sintomas psicóticos, ou seja, que têm uma apresentação clínica idêntica, mas uma evolução mais favorável.
O tratamento tem que ser multidisciplinar. Tem de ter um acompanhamento médico especializado e intervenção farmacológica que é normalmente bastante eficaz no tratamento dos sintomas positivos.
Mas há todo um trabalho que tem de ser de uma equipa multidisciplinar para que a pessoa com esquizofrenia possa ser um cidadão ativo e participante da sociedade como qualquer outra pessoa, dentro das limitações que a sua doença lhe possa condicionar. Uma das barreiras à adesão terapêutica é o estigma em relação à doença e às ideias relacionadas com os medicamentos mais antigos e seus efeitos secundários.
Infelizmente não existem muitos modelos psicoterapêuticos com eficácia demonstrada no tratamento da esquizofrenia, à exceção da psicoterapia cognitivo-comportamental e da psicoterapia interpessoal (esta para os sintomas negativos), mas tal não quer dizer que não se venham a desenvolver outros modelos no futuro.
Nem todos os doentes têm acesso a intervenções multidisciplinares porque os próprios serviços se encontram desfalcados dos recursos humanos necessários. A intervenção na esquizofrenia é cara, carece de muitos recursos humanos, e os resultados não são imediatos e têm variabilidade interindividual (para uns será ter uma vida laboral ativa, para outros será conseguir que estejam num fórum socio-ocupacional, por exemplo).
Assim, a maior barreira dos doentes às intervenções necessárias, é que os próprios serviços se encontram desfalcados dos meios necessários, e a fraca implementação no país de serviços verdadeiramente comunitários.
Dificuldades
As propostas do Programa Nacional de Saúde Mental seguem as diretivas daquilo que, hoje, são consideradas as melhores práticas em termos de organização das intervenções a nível de saúde mental. No entanto, existem dificuldades na implementação das mesmas. A título de exemplo, há ainda uma baixa implementação de estruturas comunitárias de saúde mental no país, havendo ainda um modelo centrado no hospital, longe das comunidades, suas estruturas e organizações.
Felizmente a ciência tem feito alguns avanços na área das neurociências, que nos tem permitido entender um pouco melhor a esquizofrenia. Hoje sabemos que se trata de uma doença do sistema nervoso central, como existem doenças de outros órgãos, e que tem tratamentos eficazes.
Tal como em qualquer doença, quanto mais cedo a intervenção, menores os danos causados. Por fim, queria deixar patente que as pessoas com esquizofrenia podem ter vidas ricas e completas, podem trabalhar, amar e ser amados e livres de tomarem as suas decisões. Tal como qualquer outra pessoa.
