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Após anos de sofrimento e uma longa batalha judicial, foi concedido a Noelia Castillo o desejo de morrer. Acontecerá esta quinta-feira, seguindo um protocolo rígido.
noelia castillo
Reprodução Aantena 3
A espanhola de 25 anos sofre de paraplegia total da cintura para baixo e dores graves, crónicas e incapacitantes e pediu eutanásia, prática legal em Espanha desde 2021, mas enfrentou a oposição do pai.
Gerónimo Castillo recorreu aos tribunais com o apoio da Advogados Cristãos, uma organização ultraconservadora, mas após uma batalha judicial de dois anos que passou pelo Supremo Tribunal, Tribunal Constitucional e até pelo Tribunal de Direitos Humanos de Estrasburgo, a jovem foi autorizada a avançar com a eutanásia.
O progenitor ainda tentou reverter o processo in extremis, esta quarta-feira, já depois da decisão da justiça europeia, pedido que foi de imediato rejeitado pelo Tribunal Penal, declarando-se não competente.
Gerónimo Castillo alega que a filha não tem capacidades psicológicas para tomar a decisão de pôr termo à vida, mas várias avaliações médicas asseguram que a jovem está na inteira posse das suas faculdades mentais.
Ultrapassada a fase de avaliação médica, e com aval da justiça, a morte medicamente assistida decorrerá esta quinta-feira, no Hospital Residencial Sant Camil, em Barcelona.
O processo dura 15 minutos e consiste na administração de um cocktail de três fármacos diferentes.
A lei permite que a pessoa esteja acompanhada, mas Noelia pediu expressamente que os seus pais não estejam presentes.
A decisão tem raízes mais profundas do que os últimos dois anos de luta nos tribunais.
A disfuncionalidade familiar de Noelia levaram-na a viver afastada dos pais desde os 13 anos, sob tutela da Generalitat da Catalunha, em ordens religiosas e centros de acolhimento de menores.
Em 2022 a jovem foi vítima de agressão sexual na instituição onde residia, trauma que motivou uma tentativa de suicídio. Noelia atirou-se de um quinto andar e sobreviveu com sequelas físicas sem possibilidade de recuperação, que lhe provocam “dependência grave, dor e sofrimento crónico incapacitante”. Tentou acabar com a própria vida outras três vezes desde então, até acabar por pedir a eutanásia.
“Nunca me liga, nunca me manda mensagens. Para que é que me quer viva? Para ter-me no hospital?”, questionou, referindo-se ao pai, numa entrevista ao canal de televisão espanhol Antena 3. “Ninguém da minha família é a favor da eutanásia. Obviamente, porque sou outro pilar da família. Eu vou embora, mas eles ficam aqui com toda a dor. Mas eu penso: e eu, com toda a dor que sofri todos esses anos? Quero partir agora em paz e parar de sofrer, ponto final.”
A Associação por uma Morte Digna exigiu uma alteração da lei de regulação da eutanásia para evitar que casos como os de Noelia Castillo se repitam e que o pedido de eutanásia seja resolvido com a “máxima celeridade” e “num máximo de 20 dias”.
