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Evolução animal pode ter começado milhões de anos antes do que se pensava


Ciência

Uma nova coleção de fósseis descoberta na China pode alterar a cronologia da evolução animal, ao revelar que organismos complexos já existiam milhões de anos antes da chamada explosão cambriana.

Ilustração do ambiente dos fósseis há cerca de 539 milhões a 554 milhões de anos.

Ilustração do ambiente dos fósseis há cerca de 539 milhões a 554 milhões de anos.

Xiaodong Wang

A vida na Terra surgiu há cerca de 3,5 mil milhões de anos, mas demorou muito tempo a dar origem à diversidade de organismos que existe hoje. A teoria mais aceite indica que essa diversidade aumentou de forma rápida há cerca de 535 milhões de anos, durante a chamada explosão cambriana, um período marcado pela emergência de muitos dos principais grupos animais atuais.

Uma nova coleção de fósseis descoberta na China sugere, no entanto, que esse processo pode ter começado mais cedo. Num estudo publicado a 2 de abril na revista Science, investigadores descrevem organismos complexos que antecedem o período Câmbrico em milhões de anos.

“Estamos certamente a revelar um quadro mais complexo sobre os primórdios da explosão da diversidade animal e quando isso aconteceu”, disse o coautor do estudo, Ross Anderson, paleobiólogo da Universidade de Oxford, à New Scientist.

Lacunas na transição de períodos

A transição entre o período Ediacarano, que decorreu entre há cerca de 635 e 538 milhões de anos, e o período Câmbrico, entre 538 e 485 milhões de anos, continua a ser um dos grandes enigmas da paleontologia.

Os cientistas debatem se a explosão cambriana representou um verdadeiro salto evolutivo ou se resultou de uma história evolutiva mais longa, ainda pouco documentada.

Até agora, os fósseis do Ediacarano mostravam organismos com formas muito diferentes das dos animais atuais e dos que surgem no Câmbrico, o que dificultava estabelecer uma ligação direta entre estes dois períodos.

Os mais de 700 fósseis agora descobertos no sudoeste da China, datados entre há 554 e 539 milhões de anos, podem ajudar a preencher essa lacuna. Entre eles há organismos semelhantes a espécies do Câmbrico, até agora conhecidas apenas a partir de fósseis desse período, bem como formas que combinam características ediacaranas e cambrianas e ainda espécies nunca antes descritas.

“A nossa descoberta preenche uma lacuna importante nas fases iniciais da diversificação animal. Pela primeira vez, demonstrámos que muitos animais complexos, normalmente encontrados apenas no período Câmbrico, estavam presentes no período Ediacarano, o que significa que evoluíram muito mais cedo do que as evidências fósseis demonstravam anteriormente”, afirma em comunicado o coautor do estudo, Gaorong Li, paleobiólogo da Universidade de Yunnan, na China.

À esquerda: fóssil semelhante a Haootia da Biota de Jiangchuan (escala: 2 mm) e reconstrução artística. À direita: Fóssil de cambroernídeo deuterostómico da Biota de Jiangchuan (escala: 2 mm) e reconstituição artística.

Gaorong Li (fossil photographs) and Xiaodong Wang (artistic reconstruction)

Simetria bilateral: característica fundamental na evolução animal

Um dos organismos mais comuns, com 185 exemplares identificados, era um animal semelhante a uma minhoca, com cerca do tamanho de um dedo indicador, que possuía um disco usado para se fixar ao fundo do oceano.

Alguns destes organismos apresentavam simetria bilateral, uma característica fundamental na evolução animal, associada à mobilidade, ao desenvolvimento de sistemas nervosos mais complexos e, mais tarde, ao domínio de muitos ecossistemas, explica Frankie Dunn, paleontóloga do Museu de História Natural da Universidade de Oxford e coautora do estudo, à Scientific American.

A maioria dos animais atuais, incluindo os humanos, apresenta este tipo de organização corporal, que se pensava ter surgido sobretudo durante o Câmbrico.

Os investigadores identificaram também possíveis representantes dos deuterostómios mais antigos conhecidos, um grupo que inclui todos os vertebrados. Um dos fósseis corresponde a uma criatura em forma de U, fixada ao fundo marinho, semelhante a organismos extintos do Câmbrico relacionados com as atuais estrelas-do-mar.

Para especialistas externos à investigação, os resultados encaixam naquilo que era esperado.

“Como o período Ediacarano contém animais, sabemos que deve ter havido uma fase de transição entre ele e a fauna do Câmbrico. Mas, até agora, não tínhamos qualquer evidência disso”, afirma Emily Mitchell, paleontóloga da Universidade de Cambridge, à Associated Press.

Parte da equipa de investigação da Universidade de Oxford e da Universidade de Yunnan durante o trabalho de campo em junho de 2024 na secção de Biota de Jiangchuan. Da esquerda para a direita: Dr. Wenwen Wen, Professor Peiyun Cong, Dr. Frances Dunn, Professor Associado Luke Parry, Professor Associado Fan Wei e Dr. Gaorong Li.

Gaorong Li



SIC Noticias

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