Exposições de Paula Rego (1935-2022) e Jorge Queiroz, com destaque para um conjunto de desenhos da artista portuguesa centrados na representação do feminino e no universo autobiográfico, está patente na Galeria Jahn und Jahn, em Munique, Alemanha.
Paula Rego, pintora portuguesa
PAULO DUARTE
A mostra “Paula Rego’s Women. Drawings for personal discovery” (“Mulheres de Paula Rego. Desenhos para a descoberta pessoal”, em tradução livre) constitui a primeira exposição na Alemanha dedicada ao núcleo de desenhos que marca a fase tardia da artista, segundo informação no sítio ‘online’ da galeria.
Reunindo obras que evidenciam o papel central do desenho como instrumento de descoberta pessoal e construção narrativa, a mostra conta com obras como “Cutting” (2003), que, sob a aparência de uma cena doméstica, sugere um gesto de resistência feminina face ao olhar masculino, e “Study for Lying” (1998), que explora a expressividade do corpo na construção da mentira.
Percurso marcado por uma constante reinvenção
Segundo um texto de Nick Willing, realizador e filho da artista, publicado na página, o percurso de Paula Rego foi marcado por uma constante reinvenção, mantendo no desenho uma prática estruturante, que a própria artista definia como ponto de partida para compreender “a sua história, a sua imagem, e o mundo que a rodeava”.
Até ao final da década de 1980, Rego desenhava sobretudo a partir da imaginação, explorando a liberdade de exagerar emoções e situações para reforçar a intensidade das narrativas, privilegiando o controlo do tom e da expressão em detrimento da representação naturalista, recorda Willing, no texto.
A partir de 1987, o seu trabalho passou a basear-se maioritariamente no desenho a partir do modelo, mantendo a dimensão narrativa, mas aproximando-a progressivamente da experiência autobiográfica, num processo em que as histórias se entrelaçam com memórias e conflitos pessoais.
Desenhos abordam temas como identidade, poder e vulnerabilidade
Os desenhos apresentados na exposição evidenciam essa viragem, através de imagens que condensam estados emocionais intensos e abordam temas como identidade, poder e vulnerabilidade, estabelecendo uma ligação simultaneamente íntima e universal.
Outros trabalhos, como “Riding Girl in Jodhpurs” (1999), questionam identidades de género, ao passo que “Study for Alice” (2003) e “Young Girl” (2002) abordam a ambiguidade entre inocência e afirmação, ou a vulnerabilidade associada ao crescimento.
Os estudos para “The Fitting” (1990) revelam ainda o interesse da artista pela representação do estatuto social, numa abordagem que atravessa toda a sua obra e que associa o desenho à construção de personagens e relações de poder.
De acordo com o texto curatorial, cada imagem resulta de um processo de introspeção, no qual os temas escolhidos refletem preocupações concretas da artista, funcionando como forma de processar experiências e memórias.
Em paralelo, a galeria apresenta “The republican bee and the sailor Edgar” (“A abelha republicana e o marinheiro Edgar”, em tradução livre), de Jorge Queiroz, exposição que reúne novas obras do artista português nascido em 1966, cuja prática se desenvolve em torno do desenho e da pintura, explorando associações livres, narrativas fragmentadas e relações entre figura e linguagem.
As duas exposições, inauguradas em simultâneo, estarão patentes até 2 de maio na galeria Jahn und Jahn, em Munique, com o objetivo de promover o diálogo entre diferentes gerações e abordagens do desenho contemporâneo.
