Enquanto os EUA planeiam regressar à Lua com o programa Artemis, uma questão prática continua em aberto: o que comerão os futuros exploradores lunares? De acordo com uma nova investigação liderada por uma cientista portuguesa, a resposta pode ser o grão-de-bico.

Robin Berghaus / University of Texas Institute for Geophysics
Um grupo de investigadores conseguiu cultivar grão-de-bico em solo lunar simulado, um passo considerado importante para a produção de alimentos em futuras missões tripuladas à Lua. O estudo, liderado pela investigadora portuguesa Sara Santos na Universidade do Texas em Austin, mostra que a leguminosa pode crescer em misturas com regolito lunar, desde que o solo seja enriquecido com matéria orgânica e microrganismos.
Liderada pela investigadora portuguesa Sara Oliveira Santos, a equipa de cientistas conseguiu cultivar e colher esta leguminosa utilizando solo lunar simulado, algo que, segundo os autores, acontece pela primeira vez. O estudo foi realizado em colaboração com a Universidade Texas A&M e publicado na revista Scientific Reports.
Sara Santos, pós-doutoranda do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas (UTIG), na Escola de Geociências Jackson, afirma que o trabalho ajuda a compreender os desafios de produzir alimentos na superfície lunar.
“A investigação visa compreender a viabilidade do cultivo de alimentos na Lua. Como transformamos este regolito em solo? Que tipos de mecanismos naturais podem provocar esta conversão?”, são questões que procura ver respondidas.
O desafio de transformar regolito em solo cultivável
O regolito lunar é o material que cobre a superfície da Lua. Ao contrário do solo terrestre, não contém microrganismos nem matéria orgânica, elementos essenciais para o crescimento das plantas.
Apesar de possuir nutrientes e minerais úteis para a vegetação, este material pode também conter metais pesados potencialmente tóxicos.
Para o estudo, os investigadores utilizaram um simulador de solo lunar produzido pela empresa Exolith Labs. Trata-se de uma mistura que reproduz a composição das amostras recolhidas pelos astronautas das missões Apollo.
A pegada da bota de um astronauta no solo da Lua na missão Apollo 11 fotografada por Edwin “Buzz” Aldrin a 21 de julho de 1969.
Edwin “Buzz” Aldrin / NASA via AP
Vermicomposto e fungos para ajudar as plantas a crescer
Para criar condições mais favoráveis ao cultivo, a equipa adicionou vermicomposto ao simulador de solo lunar. Este material, produzido por minhocas vermelhas da Califórnia, é rico em nutrientes e contém um microbioma diversificado.
As minhocas produzem este composto ao consumir matéria orgânica, como restos de comida, tecidos de algodão ou produtos de higiene pessoal, materiais que poderiam fazer parte dos resíduos gerados em missões espaciais.
Antes da plantação, os grãos-de-bico foram ainda revestidos com fungos micorrízicos arbusculares. Estes fungos vivem em simbiose com as plantas: ajudam-nas a absorver nutrientes e podem reduzir a absorção de metais pesados.
Até 75% de solo lunar na mistura
Para manter a hidratação das raízes num substrato com uma estrutura deficiente e baixa retenção de água, os investigadores desenvolveram um sistema de irrigação baseado no algodão que fornece água diretamente à zona radicular do grão-de-bico.
Jessica Atkin/University of Texas Institute for Geophysics
Os investigadores plantaram grão-de-bico em diferentes misturas de solo lunar simulado e vermicomposto.
Os resultados mostraram que as plantas conseguiram crescer e produzir grãos colhíveis quando a mistura continha até 75% de solo lunar. Quando a proporção de regolito era superior, as plantas começaram a apresentar sinais de stress e morreram mais cedo.
Mesmo assim, as plantas inoculadas com fungos sobreviveram mais tempo do que aquelas que não tinham sido tratadas, o que sugere que os microrganismos podem desempenhar um papel importante na adaptação das culturas a este ambiente.
Os investigadores verificaram também que os fungos foram capazes de colonizar e sobreviver no simulador de solo lunar, indicando que poderiam ser introduzidos apenas uma vez num sistema agrícola em ambiente lunar.
A que saberá o grão-de-bico lunar?
Apesar de a colheita de grão-de-bico ser um passo importante, várias questões permanecem em aberto, como o sabor e a segurança das leguminosas.
Os investigadores precisam ainda de analisar o valor nutricional das plantas cultivadas neste ambiente e verificar se houve absorção de metais potencialmente tóxicos.
“Queremos compreender a sua viabilidade como fonte de alimento”, disse Jessica Atkin, co-autora do artigo e estudante de doutoramento no Departamento de Ciências do Solo e das Culturas da Universidade Texas A&M.
“Quão saudáveis são? Têm os nutrientes de que os astronautas necessitam? Se não são seguros para consumo, quantas gerações serão necessárias para que o sejam?”
O projeto, inicialmente financiado pelas próprias investigadoras, conta agora com o apoio de uma bolsa FINESST da NASA.
