O ainda Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem, aparentemente, uma posição contrária à do Governo no que toca à ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão – ou, pelo menos, mais crítica.
Terá sido na cerimónia de tomada de posse do general João Cartaxo Alves como chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, em Belém, que Marcelo Rebelo de Sousa terá expressado a sua opinião de uma forma que ainda não fez em público ou perante os jornalistas.
“A diplomacia, para já, perdeu a voz, e, com ela, o multilateralismo, as organizações internacionais e os princípios e regras do direito internacional. São invocados quando são para justificar a posteriori factos consumados”, afirmou três dias depois de o ataque começar, segundo o jornal Expresso, que diz ter tido acesso ao discurso do Presidente.
Na altura do mesmo, note-se, a posição do Governo era de crítica única e exclusivamente ao Irão, afirmando que era “necessário” que o programa nuclear de Teerão terminasse e insistindo na necessidade de o país “respeitar os direitos humanos do seu povo, que têm sido violados de forma inadmissível”.
E rematou: “O Governo condena os injustificáveis ataques do Irão aos países vizinhos da região”. Sobre os Estados Unidos ou Israel nem uma palavra – uma posição que se mantém até ao dia de hoje.
O Governo português acompanha com grande preocupação, desde o primeiro momento, a evolução da situação no Médio-Oriente, em coordenação estreita com os nossos parceiros europeus, parceiros da região e aliados da @NATO.
Sob a coordenação do @nestrangeiro_pt, a nossa rede…
— Luís Montenegro (@LMontenegro_PT) February 28, 2026
Diz o Expresso que Marcelo Rebelo de Sousa começou por recordar a guerra na Ucrânia, que começou há já quatro anos, falando num “novo mundo, em que a guerra ameaçava derrotar a diplomacia” e onde irrompia um “galopante apagamento dos valores”. Em “2026, o mundo é outro ainda”, notou, sem, contudo, nomear os Estados Unidos ou o seu presidente, Donald Trump.
“O mundo está mais perigoso, mais instável, mais casuístico, a viver de interesses e da sua transação, e com a gestão ao ritmo de um clique de emoção imediatista. Mesmo quando o que se faz parece estratégico e a pensar para além do dia seguinte, logo aparece o desmentido a ritmo alucinante. Dá-se um passo e depois se verá o que fazer”, afirmou Marcelo num discurso que aparenta referir-se ao chefe de Estado norte-americano e à forma como tem levado a cabo a sua política externa – nomeadamente, com o Irão, mas também com a Venezuela, com a captura do então presidente Nicolás Maduro.
Note-se que este discurso foi proferido numa sala sem qualquer órgão de comunicação social, numa cerimónia na segunda-feira à noite, que foi anunciada com apenas 45 minutos de antecedência e que, ao todo, durou apenas um quarto de hora.
Três dias depois, esta quinta-feira, e ao lado do primeiro-ministro, após o último Conselho de Ministros de Marcelo Rebelo de Sousa, as declarações do Presidente da República foram bastante mais em linha com a posição do Governo.
“Encontramos várias crises internacionais a culminar naquela que ainda está a ser vivida. Isso foi um grande desafio para o Governo e para o Presidente da República portuguesa no final do seu último mandato e no final da sua vida política”, afirmou, sem se comprometer com qualquer tomada de posição.
Para o ainda chefe de Estado e, tendo em conta os últimos anos do contexto internacional, “não há comparação com a velocidade a que decorrem as crises hoje e os problemas que colocam cada vez mais complexo e difícil governar”.
“Espera-se a estabilidade dos preços, e é o risco da subida dos preços que aparece. Espera-se a aproximação da paz, mas é a guerra que acontece. Espera-se uma distensão e diálogo internacional, mas é a tensão que aparece”, elencou, considerando o mundo atual um verdadeiro “quebra-cabeças”.
