Portugal

Irão? Europa conseguiu "colocar-se numa posição de exterioridade"

“Este conflito leva a um embargo não declarado. A quem? Ao ocidente”, diz o antigo presidente da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa, referindo que não gosta de falar do ocidente em termos políticos, mas antes “em termos civilizacionais (…), porque a lógica norte-americana hoje em dia exibe um ‘decoupling’ muito forte em relação à Europa”.

Aliás, a Europa, “como sempre, está silenciosa, até está com várias vozes dissonantes entre si, relativamente à lógica do conflito”, evidencia o também ex-cônsul honorário do reino haxemita da Jordânia em Portugal, adiantando que há países “que vão evoluindo na vocalização distinta e na lógica distinta como aborda o problema”.

Contudo, “a Europa, em primeiro lugar, conseguiu encontrar uma forma, se bem que não articulada suficientemente, para colocar-se numa posição de (…) exterioridade em relação ao conflito” e com isso conseguiu duas vantagens, aponta Ângelo Correia.

A primeira, “para si própria, a perceção de que a sua política energética tem de mudar, tinha uma confiança excessiva nas energias renováveis, o que era um erro teórico e prático” e agora “está a corrigi-lo e, por isso, a emergência do nuclear como uma nova forma de energia aceite e desejada pela Europa é um fator positivo”, destaca o especialista.

Em segundo lugar, “e mesmo regressando aos combustíveis clássicos, ao renovar da ligação entre os países árabes do Golfo e a Europa”, o que classifica de “positivo”.

Ou seja, “nem tudo é negativo para a Europa, se bem que voltamos à questão essencial, que é o embargo não declarado pelo facto de o Estreito do Golfo, de Ormuz, estar fechado”, sublinha.

Até porque “não há processos militares, do meu ponto de vista, que consigam conter, destruir essa hipótese”, adverte Ângelo Correia, que aponta que a única forma “mais lógica e credível em termos de sucesso é a negociação”.

Mas enfatiza: “Só há negociação quando o Irão quiser, quem decide o fim da guerra não são os Estados Unidos, nem a voz de Donald Trump. Quem decide o fim da guerra é o Estado iraniano”.

Porque só o Irão é que tem a capacidade de terminar com a lógica do encerramento de Ormuz.

Portanto, a questão “é o que é que o Irão pretende para extinguir o risco do estreito de Ormuz. Já o disse, quer reparações, quer declarações dos contendores, quer um pedido de desculpas quase e quer uma estabilidade futura política e territorial”, contextualiza.

Ângelo Correia não acredita que Israel possa negociar com o Irão, mas os Estados Unidos podem.

“Mas a negociação com os Estados Unidos vai ser muito complicada porque se for aceite o princípio que o Irão impõe, ou pelo menos expressa, de que a inviolabilidade do seu território é uma questão nuclear para ele, como é que os Estados Unidos podem aceitar isso, sabendo que há um permanente histórico desejo e objetivo de Israel de acabar com o poder iraniano”, questiona.

Perante isto, “só há uma forma de o fazer: é os Estados Unidos imporem isso a Israel”, mas isso “significa que Israel nunca mais (…) pode invocar a questão iraniana em termos de seu futuro, do seu território, da sua soberania, de modo a poder executar missões de no futuro continuar a destruir o novo reconstruído aparelho nuclear do Irão”, prossegue.

Portanto, o que é que Israel tem de aceitar para que o Irão diga acabou a guerra.

“Israel não tem capacidade de destruir as defesas e as armadilhas que o Irão lá colocou. Por isso tem que ser a vontade expressa do Irão em fazê-lo. E para o Irão o fazer tem de recorrer a argumentos aceitáveis (…) para ele, mas aceitáveis para os Estados Unidos”, salienta.

Por sua vez, “os argumentos aceitáveis para os Estados Unidos têm de ser coincidentes com os de Israel. Ora, se Israel tem um princípio existencial que diz que a sua soberania, a sua existência não é aceitável por parte daquilo que, digamos, o Irão permanentemente o executa, estamos perante uma dificuldade maior”, refere.

Ou seja, isto significa que nenhum contendor perde a face.

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