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NOTÍCIA SIC
Em Lisboa, um casal de idosos vive num prédio em avançado estado de degradação, sem condições de habitabilidade e de segurança. Uma parte do edifício ruiu e não há água. A autarquia diz que a responsabilidade é dos proprietários.
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Não parece, mas é uma casa habitada, onde vive uma mulher de 70 anos com Alzheimer e o companheiro, que é também o seu cuidador. Jorge cuida da mulher e da casa, do que resta do primeiro andar de um prédio no centro de Lisboa, entre o Cais do Sodré e a Calçada do Combro, uma zona nobre da cidade. O casal vive como se em Lisboa não existisse saneamento básico.
Jorge vai todos os dias a uma fonte pública, mas a casa de banho é quase uma figura de estilo.
“Temos de tomar banho no balneário. Por acaso, temos aqui uma torneira, uma fonte, mas corre apenas um fio de água e demora cinco minutos a encher um garrafão. Tenho de trazer água de fontes mais distantes”, refere Jorge Silva.
Quando Jorge se juntou com Fátima, a casa já tinha problemas, e eram antigos. Em 2019, ainda Fátima era saudável e vivia com o primeiro marido, com quem alugou esta casa há 50 anos, houve uma vistoria da Câmara Municipal de Lisboa.
O processo 606 data dessa altura e foi aí que a autarquia teve, pela primeira vez, conhecimento do estado de degradação. Em 2024, ruíram as paredes da cozinha.
“A CML realojou-nos numa pensão durante dois dias, a 79 euros por noite. No primeiro dia pagou a CML, no segundo tivemos de pagar nós. A reforma dela é de 500 euros e a minha de 230. Voltámos para cá porque não tínhamos dinheiro para pagar”, acrescenta.
Foram acumulando o que lhes resta, com receio de que algo lhes faça falta.
“Isto já se arrasta há anos. O que nos alertou, como instituição, foi o temporal, o nosso inverno há umas semanas, porque isto pode tornar-se uma tragédia”, refere Carolina Spínola, diretora do Centro Paroquial e Social de Santa Catarina.
Novo senhorio terá dito não ter dinheiro para fazer obras no prédio
O estado do prédio é visível de fora. Há ainda outra inquilina. Os restantes pisos foram ficando ao abandono e vulneráveis ao vandalismo. Apesar de ainda existir porta da rua, é fácil entrar e levar o que existia de valor, como os azulejos, cujas marcas se veem.
Contactada pela SIC, a autarquia diz que intimou os proprietários a fazer obras de conservação. Perante o incumprimento, foram instaurados processos de contraordenação. O senhorio original, segundo os inquilinos, morreu, e a divisão do prédio estará a ser feita em tribunal.
Também o contactámos, através do número que Jorge nos deu, mas não respondeu nem às chamadas, nem às mensagens. Antigos inquilinos que falaram à SIC, mas não quiseram gravar, dizem que estiveram anos sem resposta do senhorio e que acabaram por sair por falta de condições.
Casal é acompanhado pelo centro paroquial
Jorge e a mulher têm filhos. Estão a ser acompanhados pelo Centro Paroquial e Social de Santa Catarina. Fátima é também seguida pela Santa Casa, que reabriu o processo este ano. A autarquia diz que lhe foi explicado como se pode candidatar a uma casa camarária.
“A Câmara Municipal de Lisboa tem de encontrar uma solução: pensões, um quarto para os dois ou individual, ou uma casa, como já aconteceu com outros idosos. Claramente, a CML tem de se chegar à frente”, acrescenta Carolina Spínola.
Jorge conta que até falou com Carlos Moedas, numa reunião de Câmara, mas continua à espera de resposta.
