“Hoje, na Venezuela, os nossos trabalhadores e a nossa sociedade passam fome. Fome. E isto não é um discurso político. É preciso sair à rua para ver a realidade tão difícil que a sociedade venezuelana está a viver. Existe uma brecha entre os funcionários públicos e os trabalhadores do setor privado, mas também o setor privado não oferece um salário suficiente […] para que se possa viver com dignidade”, disse Andrea Tavares.
A promessa da lusodescendente surge quatro dias depois de a polícia venezuelana ter dispersado, com gás lacrimogéneo, e com alguma violência, uma manifestação convocada por sindicados e trabalhadores para reclamar aumentos salariais em frente do palácio presidencial de Miraflores.
Andrea Tavares falava em Caracas, durante uma iniciativa da Plataforma Unitária Democrática (PUD), que reúne os principais partidos da oposição, para apresentar a “folha da rota para alcançar uma transição democrática” na Venezuela.
“Todos sabemos que o trabalho nos dignifica, mas aqui tiraram-nos a dignidade porque nos tiraram o valor social do trabalho. Pedir um salário justo e digno é um direito, mas não é suficiente, porque temos de voltar a reivindicar os nossos acordos coletivos, os benefícios sociais”, disse.
A lusodescendente salientou que os “bónus” (subsídios) não fazem parte do salário e pediu a eliminação da legislação que destruiu as tabelas salariais na Venezuela, prometendo que a PUD acompanhará as reivindicações da população.
“Vamos retomar a luta de anos de muitos trabalhadores para alcançar esses direitos que um governo ou regime que se diz defensor dos trabalhadores destruiu […]. É por isso que os trabalhadores estão na rua: os reformados, os pensionistas, as enfermeiras, os médicos, os professores”, disse, alertando que os venezuelanos estão “a sofrer a pobreza e a miséria de um regime que os condenou à escravidão”.
Andrea Tavares denunciou ainda que desde há 1.489 dias, mais de quatro anos, os venezuelanos “estão submetidos à escravidão total” e questionou o porquê de os trabalhadores terem de sofrer as consequências “de uma liderança política corrupta que saqueou os recursos” do país e viver na miséria, quando os fundos públicos são roubados e os recursos venezuelanos são depositados em contas privadas fora do país.
“Ninguém consegue sobreviver com um salário de 130 bolívares [0,23 euros à cotação oficial], sobretudo hoje, quando o cabaz básico ronda os 645 dólares [550,35 euros]. Por isso, camaradas, a partir desta Plataforma Unitária, iremos sempre manifestar o nosso apoio e solidariedade à vossa luta”, prometeu.
A dirigente indicou ainda que a oposição criou uma comissão de solidariedade social que acompanhará, debaterá e elaborará propostas sérias para recuperar o valor social do trabalho e consolidar a dignidade dos trabalhadores.
“Se não conseguirmos construir um país produtivo, não conseguiremos uma mudança democrática, porque não há confiança no país. Mas, não existirá um país produtivo sem uma classe trabalhadora sólida, robusta, fortalecida e digna”, salientou.
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