Agronegócio

Mau tempo: Empresas esperam que medidas se enquadrem em estratégia para a floresta


A associação nacional de empresas florestais espera para ver como as medidas nas áreas afetadas pelas tempestades se enquadram na estratégia para o setor florestal, advogando “uma reflexão” sobre como tornar a floresta mais resistente a fenómenos extremos.

“De facto, aquilo que são as medidas do chamado PTRR, nós continuamos ainda sem perceber muito bem como é que tudo aquilo vai ser, como é que aquelas ideias vão ser enquadradas em termos de estratégia para aquilo que deve ser uma floresta pensada”, afirmou Pedro Serra Ramos.

O presidente da direção da ANEFA – Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente, em declarações à Lusa, defendeu que está na altura de se fazer “uma reflexão se estes fenómenos de destruição massiva se compadecem com florestações cujas árvores demoram 45 anos a crescer para terem um tamanho normal para exercerem a proteção que exerciam anteriormente”.

“Há que repensar […], olharmos para aquilo que tem sido a estratégia florestal, porque nós continuamos a insistir na mesma estratégia florestal que os nossos pais e avós insistiam e, se calhar, está na altura de repensarmos toda a estratégia florestal para nos salvaguardar destas alterações climáticas que estão aí” e “vão começar a ocorrer cada vez com mais frequência”, notou.

Em relação a medidas de “intervenção imediata” na floresta para conter os riscos de incêndio, previstas no programa Portugal, Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), aprovado na semana passada em Conselho de Ministros, Pedro Serra Ramos referiu que, do que se sabe, é ainda “um bocadinho vago”.

“Estamos preocupados com algumas coisas que vêm associadas a isso, nomeadamente a questão da facilidade administrativa com que se fazem expropriações e com que se procede a uma série de coisas”, parecendo que há “medidas que vão caminhar no sentido do facilitismo”, quando “seria o momento ideal para se pensar nas coisas como deve ser”, advogou.

Para o dirigente da ANEFA, as consequências das recentes depressões Kristin, Leonardo e Marta na região de Leiria e de Pombal estarão possivelmente associadas à devastação que atingiu o pinhal de Leiria em 2017, com os incêndios, tendo-se demorado “quase nove anos” na rearborização, deixando de ter a proteção que existia “relativamente às condições climatéricas” na região.

Entre as ações urgentes, Pedro Serra Ramos apontou a “quantidade de madeira de pinheiro-bravo” no chão, “que precisa de ser escoada rapidamente”, recusando a sua acumulação em parques, para garantir um preço mínimo ao produtor, “porque tira eficiência em todo o processo”.

Em sua opinião, na “pressa com que estão a tentar fazer as coisas”, há “uma mistura muito grande de conceitos entre o que é uma associação de produtores florestais, o que é uma empresa, quem faz o quê”.

“Acabamos por ver o Governo a distribuir máquinas pelas associações de produtores florestais, mas essas máquinas vão fazer o quê? Máquinas pelos municípios, mas essas máquinas vão fazer o quê?”, questionou, acrescentando que “há alguma ligeireza na distribuição de recursos, como se se quisesse mostrar que se está a fazer qualquer coisa”.

Perante o risco de andarem “todos a fazer o mesmo”, deixando outras coisas por fazer, Serra Ramos salientou que, nesta fase, o executivo devia “olhar para a estratégia que tem para a floresta e ver quem faz o quê e, nessa altura, avaliar o que são os recursos necessários para isso”.

Nos projetos ligados à floresta ativa, continuou, abrem-se “candidaturas sem haver ninguém responsável pelo trabalho que se está a fazer nas florestas”, o que “é muito inconsequente”, pois “vai levar a que ninguém tenha controle na situação, porque o ICNF [Instituto de Conservação da Natureza e Florestas] não tem meios para monitorizar, nem para controlar”.

“Portanto, tudo isto vai desregular um bocado o funcionamento das coisas e o funcionamento do setor florestal e, para nós, isto vai trazer maus resultados mais cedo ou mais tarde e vai trazer maus resultados durante a época de fogos”, frisou.

O responsável da ANEFA alertou que, antes das tempestades, disseram ao Governo que não aceitam mais despachos, como nos anos anteriores, a proibir “trabalhar durante o verão”, uma vez que “não há evidências de que isso resolve a situação, antes pelo contrário”.

“Fizemos um levantamento dos 17 dias que parámos o ano passado e estamos a falar de milhões de prejuízos das empresas. As empresas não conseguem aguentar mais épocas dessas”, avançou Pedro Serra Ramos, considerando que alguém terá de olhar para a questão e “pôr as coisas a funcionar de outra maneira”, ou haverá “consequências”.



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