Há quem esteja a fazer das reformas por invalidez um negócio. A Investigação SIC entrou no esquema que envolve uma médica de Benavente: durante meses, fomos a várias consultas, fizemos exames e prometeram-nos a reforma por invalidez, mas só se pagássemos 1.000 euros à médica. O esquema tomou proporção tal que, numa única empresa pública, esta médica conseguiu que dezenas de trabalhadores se reformassem por invalidez.
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Emuna Mia tem consultório em Santo Estevão, Benavente. Tem 72 anos e chegou a ser Coordenadora da Unidade de Saúde Familiar.
Três vezes por semana e também ao sábado, o pequeno consultório enche-se de clientes que vêm atrás da fama da médica que consegue as reformas antes do tempo.
A Investigação SIC também marcou consulta e, logo na primeira chamada, a rececionista não está com rodeios:
“- É a primeira vez? – A primeira vez, sim.– É para reformar?– Não percebi.– É para reformar?– Para reformar? Como assim?– Pronto, se a senhora vem pedir a reforma à doutora?”
A falsa utente da Investigação SIC é uma mulher que está a seis anos da idade legal para deixar de trabalhar.
Emuna Mia manda-a fazer diversos exames – TACs, ecografia – em locais específicos, um deles em Leiria, a 150 quilómetros de distância do consultório.
Há um outro detalhe que a médica deixa claro:
“Tem de fazer a alteração da morada. Pode ganhar tempo já aí. Ver se arranja uma alteração da morada, alguém que more por aqui…”
A Investigação SIC mostrou os resultados dos exames a um médico especialista em juntas médicas que é perentório a afirmar que a nossa falsa utente não teria a mínima hipótese de aceder à reforma, uma vez que as patologias apresentadas não têm implicação no desempenho e na sua capacidade funcional para trabalhar.
Mas, assim que teve os exames nas mãos, a médica não teve dúvidas:
“Aquilo que você tem já dá para se reformar, só preciso que você me diga ‘já tenho morada na zona’”.
O preço vem na resposta seguinte:
“- Mil.– Mil? Fica 1.000 euros o…– O processo.– Assim que estiver terminado?– Não, não. Não é quando estiver terminado.– Ah, porque não se sabe…– É assim… Quando você decidir que quer tratar eu digo-lhe que são mil com base nos exames que tem, com base na probabilidade de ficar. Se não ficar bem com base numa junta com médico relator eu irei consigo a recurso.”
A rececionista de Emuna Mia haveria depois de esclarecer que esse valor não é declarado:
“A Dra. não passa recibo desse dinheiro. Da consulta passa, agora desse dinheiro não passa.”
Nada que afaste a clientela. O sucesso da médica tem passado de boca em boca. A Investigação SIC teve conhecimento que nos últimos anos, dezenas de trabalhadores da Carris já recorreram a Emuna Mia.
Contactada pela SIC, a empresa revela que efetivamente identificou “crescimento continuado e aparentemente anómalo nos processos de reforma por invalidez” e que, por isso, apresentou uma queixa-crime junto do Ministério Público.
- Investigação SIC: conte-nos o que merece ser denunciado através do email investigacao@sic.pt.
Ficha Técnica:
- Jornalista: Bruno de Castro Ferreira
- Imagem: Luís Bernardino, Rafael Homem, José Silva, Carlos Rosa e Filipe Ferreira
- Edição: Tiago Martins
- Drone: 4KFLY
- Grafismo: Fernando Ferreira
- Produção: Mariana Óca Ferreira
- Coordenação: Luís Garriapa
- Direção: Bernardo Ferrão e Marta Brito dos Reis
