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Num lago congelado no norte da Finlândia, mergulhadores descem sob o gelo para treinar técnicas essenciais à investigação científica nos polos. O curso pretende preparar cientistas para estudar ecossistemas vulneráveis num contexto de aquecimento acelerado do Ártico e da Antártida.
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Um buraco quadrado aberto no gelo marca o ponto de entrada para um ambiente extremo.
Num lago congelado na Finlândia, decorre uma formação de mergulho científico polar que prepara investigadores para trabalhar no Ártico e na Antártida.
Os mergulhadores descem cerca de oito metros abaixo da superfície, onde a luz solar atravessa o gelo e ilumina um cenário subaquático com peixes, formações rochosas e areia.
“A vista é lindíssima. A luz passa entre o gelo. Vi alguns peixinhos, formações rochosas e muita areia. Foi ótimo. É muito bom”, descreve à AP Daan Jacobs, consultor de biodiversidade.
Formar cientistas para ambientes extremos
O programa foi desenvolvido pela Academia Finlandesa de Mergulho Científico e destina-se a formar a próxima geração de investigadores capazes de recolher amostras em ambientes polares.
Cada sessão, com duração de 10 dias, junta cerca de uma dúzia de participantes na Estação Biológica de Kilpisjärvi, da Universidade de Helsínquia.
O curso arrancou em 2024 e a procura levou já à criação de uma segunda sessão anual.
Entre os participantes estão biólogos marinhos e de água doce, cientistas de outras áreas, mergulhadores experientes e realizadores de documentários.
Para Ruari Buijs, estudante de biologia marinha e oceanografia na Universidade de Plymouth, a formação pode ser decisiva:
“A verdadeira razão é que espero estar a trabalhar na Antártida em breve e, para me tornar mais empregável, pensei que este seria um ótimo passo para atingir esse objetivo”.
Desafios físicos para futuras missões científicas
Mergulhar sob gelo com quase um metro de espessura e em água próxima de zero graus implica mais do que técnica de mergulho.
À superfície, a equipa enfrenta temperaturas que podem atingir os -40 graus e ventos fortes, o que dificulta a operação dos equipamentos e aumenta o risco de hipotermia.
Os participantes aprendem também a atuar como mergulhadores de segurança, incluindo em cenários de emergência, como a dificuldade em localizar a abertura no gelo após cerca de 45 minutos submersos.
“O pior é que depois os lábios ficam muito dormentes e muito inchados. É como se tivéssemos um pouco de Botox nos lábios. Estão dormentes”, relata Buijs.
Segundo Erik Wurz, biólogo marinho e instrutor do curso, a exigência destas missões torna a formação essencial:
“Existem institutos nacionais de investigação que enviam mergulhadores para estas regiões, e estes mergulhadores têm horários muito apertados para expedições que custam muito dinheiro. Por isso, é essencial ter uma equipa super preparada, na qual se possa confiar para começar a trabalhar e recolher boas amostras desde o primeiro dia”.
O treino ganha relevância num contexto de alterações climáticas aceleradas.
O Ártico está a aquecer a um ritmo cerca de quatro vezes superior ao do resto do planeta, com impactos nos padrões climáticos globais e na fauna, incluindo os ursos polares, que dependem do gelo marinho para caçar.
Na Antártida, o aumento das temperaturas contribui para o degelo das calotas polares, com consequências na subida do nível do mar e nos ecossistemas oceânicos.
Perante este cenário, os cientistas procuram compreender o que existe sob o gelo e como as mudanças estão a afetar plantas e animais.
“Precisamos de mais pessoas a trabalhar no terreno e de mais ciência para compreender o que está a acontecer e mostrar porque é importante preservar estes ecossistemas”, defende Wurz.
Uma experiência única
Para Caroline Chen, mergulhadora científica e assistente de investigação, a formação é também uma ferramenta para o futuro:
“Ser capaz de conceber uma experiência científica e compreender como funciona a operação de mergulho nestas condições será muito útil para desenvolver o meu próprio projeto, porque saberei o que é possível e o que não é”.
Debaixo de água, a experiência é descrita como única:
“A formação de gelo vista de baixo para cima é impressionante. Às vezes há sol e a paisagem muda constantemente, como a aurora boreal. Muda a toda a hora, mesmo quando estamos parados”.
