Nascido na Ribeira do Porto há 124 anos, foi batizado como Diocleciano Monteiro, mas ficou conhecido por Duque, nome determinado pela mãe, por “ser mais fácil de dizer,” enquanto o apelido da Ribeira ganhou-o “das gentes do Porto”, pela sua presença constante junto ao rio e pelos salvamentos e resgastes que protagonizou durante mais de sete décadas, revelou Cândido Venceslau.
Barqueiro, pescador e estivador, o Duque foi, acima de tudo, uma presença constante junto ao Douro, das 08h00 até ao final do dia, sempre atento a tudo, relatou o familiar, também presidente da associação Dramas, “criada com o propósito de ativar e perpetuar a memória de uma personagem típica, modesta e carismática da Ribeira/Barredo e do rio Douro, nas margens do Porto e de Gaia, que ficou conhecida por “Duque da Ribeira” lê-se na sua página no Facebook.
A lenda fala de centenas de resgates e dezenas de salvamentos no rio Douro e o familiar assume não ter números reais dessa atividade: “não há ninguém que possa ter a certeza disso”.
Todavia, continuou, o registo de resgate de corpos não se circunscreveu ao rio Douro, “tendo também sido chamado para retirar corpos do fundo de lagoas em pedreiras” nos arredores do Porto.
Voltando ao Douro, o Duque “salvou a primeira pessoa aos 11 anos, alguém que caiu ao rio, talvez por ter escorregado, tendo ido a nado para o salvar”, assinalou Cândido Venceslau, que confirmou dever-se ao facto de o tio ter um “conhecimento profundo das correntes do rio, algo que aprendeu sozinho, ter conseguido resgatar tantos corpos”, algo que fazia com “recurso a uma grateia, uma ferramenta que fazia o arrasto no fundo do rio e que, dessa forma, permitia recuperar os afogados”.
Sobre as razões para tantas mortes contabilizadas, nesse tempo, no rio, o descendente do barqueiro associou-as a “suicídios e descuidos”, algo que, curiosamente, mudava assim que ocorriam “grandes cheias no Douro”.
“Nesse tempo não acontecia nada, porque as pessoas não arriscavam. O Duque, sempre que havia cheias, nalguns casos de madrugada, era dos primeiros a chegar à Ribeira, ajudava as vendedeiras de fruta e de hortaliça a tirar as coisas e mantinha uma vigilância permanente, mas esses dias eram os mais sossegados. Ele era a prevenção em pessoa”, contou de um tempo em que as águas do Douro subiam quase até ao tabuleiro inferior da ponte Luiz I.
Nesse tempo, recordou, “não havia salário, o ganho era ao dia e, por isso, o Duque dividia-se no resto do tempo entre a pesca e o trabalho de barqueiro, pois a tarefa de resgatar pessoas não lhe dava dinheiro, pelo contrário, nalguns casos ampliou o seu trabalho para a margem, fazendo subscrições para ajudar a pagar o caixão às famílias pobres”.
“As pessoas habituaram-se tanto a ele ser o pronto-socorro, a ser a primeira pessoa, em ser a referência, que havia sempre alguém a correr para o chamar e, se estivesse próximo, ele ia. Quantas vezes o foram chamar a casa quando estava a dormir”, acrescentou.
Com o passar dos anos a ser o centro de tantas atenções e da gratidão, o Duque tornou-se “vaidoso”: “ele gostava dos louros. E tinha todo o direito a isso!”, frisou o familiar, que desvendou outra faceta do barqueiro, a de que ele “não gostava de falar da família, passando, assim, a ideia de que vivia só e, dessa forma, poder ter mais apoios”.
“Nem primos, nem irmãos, nem cunhados, nada. Não falava em ninguém. No entanto, toda a gente sabia na Ribeira ser de uma das famílias mais antigas, que chegou ao local por volta do século XVIII, proveniente da aldeia de Covelinhas, na zona da Régua, em viagem de barco rabelo”, relatou o sobrinho.
Cândido Venceslau contou também que as histórias dos resgates do Duque tiveram, quase sempre, mais intervenientes a bordo, “pois ele precisava de quem remasse no local onde ele pensava estar o corpo, para poder usar a grateia”, uma tarefa que “foi para além dos 80 anos”.
A longa vida do Duque – morreu a 09 de fevereiro de 1996, com 94 anos – teve várias facetas, e uma delas, ligada ao rio, claro, foi a de ensinar a nadar centenas de crianças, algumas com o auxílio de uma corda, lembrou o sobrinho.
“Ele ensinou muitos meninos e meninas a nadar. Centenas”, revelou o familiar, admitindo que, neste caso, “possa ter havido compensações monetárias”, pelo facto de ter sido, também, convencido por famílias com “algum poder económico a ensinar os filhos a nadar na piscina de Espinho”, pessoas que alegavam que “no rio não, que era sujo”.
Mas havia as outras crianças, as de famílias pobres, e o Duque não lhes dizia que não, assinalou Cândido, lembrando que o tio começou por ensinar na Lingueta “onde a água lhe dava pela cintura e dava para as crianças aprenderem a nadar”, mas também ensinou ao lado, “nas Escadas da Padeira, aqui já com recurso a uma corda, amarrada ao corpo dos jovens, porque era fundo e ele estava no barco”.
Mais tarde, a montante da ponte ferroviária D. Maria Pia, a APDL [à data denominada Administração dos Portos do Douro e Leixões] cedeu-lhe um espaço no rio para ele utilizar como praia para ensinar as crianças a nadar. Num segundo momento, ensinou também no outro lado do rio, sensivelmente em frente, contou.
A vida de Duque foi também marcada por gestos de gratidão, batizando o seu segundo barco com o nome de JW Cowie, nome de um comandante da marinha mercante escocesa, relatou o sobrinho.
“Antes de morrer o comandante pediu ao Duque para, após a sua morte, lançar as suas cinzas na barra do Douro. E ele assim o fez, dando depois o nome do comandante ao seu barco de trabalho”, disse.
A Revolução dos Cravos trouxe-lhe reconhecimento, o primeiro presidente da Câmara do Porto em democracia, Aureliano Veloso, pai do cantor Rui Veloso, passou a pagar-lhe uma subvenção e, em 1975, e autorizou-o a almoçar na cantina do município. Pelo meio, o Duque passou a ter um quiosque na Ribeira, recordou o também presidente da associação criada para perpetuar a sua obra.
No próximo dia 28, Cândido Venceslau fará a “Evocação do 124.º Aniversário do Duque da Ribeira”, que se assinala quatro dias antes. O ponto de encontro será às 09:00 junto do edifício da Capitania dos Portos do Douro e Leixões, na Rua da Alfândega.
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