Cultura

O novo "casal Michelin": Angélica e Tiago receberam estrelas no mesmo dia pelos seus respetivos restaurantes no Porto


Boa Cama Boa Mesa

O Funchal recebeu mais uma edição da gala portuguesa do Guia Michelin, mas foi o Porto que se destacou com mais cinco novos restaurantes com uma estrela. É também nesta cidade que trabalham Angélica e Tiago, o novo casal a brilhar na alta cozinha

Tiago Bonito e Angélica Salvador, o novo casal Michelin

DR

O pano caiu sobre a gala portuguesa do Guia Michelin que decorreu esta terça-feira no Funchal sem que Portugal tenha conquistado a tão desejada terceira estrela.

A sempre ansiada chuva de prémios teve reflexo maior nos novos 10 restaurantes que conquistaram uma estrela reforçando a constelação nacional distinguida pela Michelin, que teve como “surpresa maior”, a subida na escala do Fifty Seconds, liderado por Rui Silvestre, que agora passa a ostentar duas estrelas no alto da Torre Vasco da Gama.

Porto, nação gastronómica

Ricardo Dias Ferreira, restaurante Gastro by Elemento

A edição de 2026 do Guia Michelin para Portugal aponta uma tendência: o eixo gastronómico de Portugal deslocou-se para o Norte. Numa cerimónia marcada pela consagração de novos projetos e pela reafirmação de clássicos, o Porto passa agora a ter quatro novos restaurantes com uma estrela: dop (Rui Paula e Sandro Teixeira), Éon, Porto (Tiago Bonito), Gastro by Elemento (Ricardo Dias Ferreira) e In Diferente (Angélica Salvador).

A estes quatro juntam-se ainda dois novos espaços distinguidos pela primeira vez na região norte: Amarante celebra o regresso triunfal do Largo do Paço, liderado por Francisco Quintas, que também foi distinguido com o prémio “Jovem Chef”, enquanto o Douro Vinhateiro reforça a sofisticação gastronómica com o restaurante Schistó (Vítor Matos/Vítor Gomes), situado no Peso da Régua.

Refira-se que no Grande Porto estão sedeados três restaurantes com duas estrelas Michelin: Antiqvvm, do chef Vítor Matos, Casa do Chá da Boa Nova, de Rui Paula/Catarina Correia, em Leça da Palmeira, e The Yeatman Gastronomic Restaurant, liderado por Ricardo Costa, em Vila Nova de Gaia.

Lisboa: A exceção no topo

Fifty Seconds

Em contraponto, contrastando com a chuva de estrelas a Norte, a capital portuguesa teve uma presença discreta nas novas consagrações. A grande exceção foi o Fifty Seconds, onde Rui Silvestre provou que o rigor e a inovação conseguem manter Lisboa no mais alto patamar do Guia Michelin, sendo o único nome novo da cidade a subir ao palco para receber o galardão de duas estrelas nesta edição.

Merece referência, em Cascais, a atribuição de uma estrela ao Kappo de Tiago Peñao. Contas feitas, Lisboa perde dois restaurantes nesta lista em relação a 2025. O restaurante Eleven não renovou a Estrela, bem como o Arkhe, entretanto encerrado definitivamente.

Apesar de novo nome e nova localização na capital, Henrique Sá Pessoa, que antes tinha duas estrelas no Alma, manteve a distinção no novo restaurante (Henrique Sá Pessoa), aberto a meio de fevereiro.

A sul, destacam-se dois novos restaurantes premiados, com uma estrela Michelin: Mapa, liderado por David Jesus, no resort L’AND Vineyards, em Montemor-o-Velho, e A Cozinha do Paço, na Fita Preta, em Évora, comandado por Afonso Dantas.

O novo casal Michelin

Chef Aangélica Salvador

No mesmo dia, com projetos distintos, mas um fôlego partilhado. O casal Angélica Salvador e Tiago Bonito subiram ao palco para receber, cada um, a sua estrela Michelin. Ela pelo projeto próprio, In Diferente, ele pelo novo Éon, ambos no Porto. Os dois cozinheiros acompanham agora um outro casal da alta cozinha portuguesa: Marlene Vieira e João Sá, com projetos em Lisboa.

Há 20 anos que Portugal é o lar escolhido por Angélica Salvador, de origem brasileira, os mesmos que tem de vida em comum com Tiago Bonito. Trabalharam juntos de norte a sul, em sucessivas cidades, até que há sete anos decidiram fazer nascer o próprio “bebé”: o restaurante In Diferente, na Foz do Douro. “O projeto é nosso, somos nós os proprietários e os sonhadores. Começámos com os cêntimos contados e, tal como um bebé, tivemos de “mudar fraldas, ouvir o choro e dar mimo”, confessa a chef.

Para o casal, a noite da Gala Michelin na Madeira foi um turbilhão de sentimentos. Tiago Bonito, natural de Coimbra e já com um percurso firmado (foi Chef Cozinheiro do Ano em 2011 e teve uma passagem premiada pelo Largo do Paço), viu o novo projeto, o Éon, ser reconhecido apenas meses após a abertura. “Ficamos felizes um pelo outro. É um misto de emoção, honra e orgulho. Temos a felicidade a dobrar”, partilha o casal. Sobre a gestão da vida pessoal e profissional, Angélica Salvador explica a fórmula: “Respeitamos o espaço, o horário e a rotina um do outro. Quando temos dúvidas, ligamos e partilhamos informação. Não temos filhos, o nosso filho é o In Diferente.”

Num momento histórico para os dois chefs, falam sobre a importância da resiliência: “No Covid tivemos muitas batalhas que ultrapassar, mas a força, o amor e a paixão não nos deixaram desistir. O prémio é nosso, mas também das equipas que estão por trás.” Falam na importância de “saber-se adaptar, falar com as pessoas e ver o que o cliente procura. Acima de tudo, nunca desistir.”

Percursos cruzados

Chef Tiago Bonito

Angélica Salvador lidera o In Diferente com uma cozinha de autor ligada ao mar e marcada pela sazonalidade, focada na consistência diária. Adora ir ao mercado todos os dias e desenvolveu uma relação de confiança com os fornecedores. Trabalhou em várias cozinhas de hotéis e restaurantes de referência, muitas vezes como subchefe, onde apurou o rigor técnico e a capacidade de gestão. “Sempre trabalhámos juntos na cozinha… sabemos dividir o trabalho e o amor”, explica sobre as duas décadas de colaboração com Tiago. Esta fase foi crucial para absorver a identidade dos produtos portugueses, especialmente a sua paixão pelo mar. “Portugal é o país que escolhi para chamar de lar. O In Diferente é um convite para explorar o equilíbrio entre criatividade e tradição, refletindo paixão, raízes e viagens.”

Tiago Bonito é hoje exemplo de técnica na cozinha, resultado de um percurso sólido iniciado com a formação em Coimbra. Com experiência forjada a Sul, passou pelo Sheraton, o Grande Real Santa Eulália e o São Rafael em cinco anos e fez parte das Equipas Olímpicas de Culinária de Portugal. Antes de se fixar no Norte, o chef passou pelo Troia Design Hotel, o Vilalara Grand Hotel Algarve e participou da abertura da Pousada de Lisboa. Em 2017 assumiu a cozinha da Casa da Calçada (até ao encerramento para renovação profunda), onde iniciou o ciclo de consagração que agora culmina no projeto próprio, o Éon.



SIC Noticias

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