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A primeira experiência de orniterapia em Portugal está disponível até ao final deste mês de março. Trata-se de uma proposta de bem-estar, que junta natureza, relaxamento, observação de aves e contemplação nas Salinas do Samouco e no Praia do Sal Resort & Spa.
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O sol ainda mal rompeu no horizonte quando a primeira revoada de flamingos se ergue das Salinas do Samouco. O silêncio é apenas cortado pelo bater das asas e o som musicado da ondulação. A poucos metros, um pequeno grupo, de binóculos em punho, espera que o dia traga algo mais do que uma simples observação de aves. Vieram em busca de descanso, mas encontram algo raro: atenção plena. Assim nasce, em Alcochete, a primeira experiência de orniterapia organizada em Portugal.
A cerca de meia hora de Lisboa, o Praia do Sal Resort & Spa apresenta uma proposta que mistura natureza, ciência, gastronomia e bem‑estar. Tudo numa ideia simples, mas poderosa: escutar o que as aves têm para dizer.
Quando o canto se torna terapêutico
Na sala de conferências improvisada do resort, Philippe J. Dubois e Élise Rousseau falam como quem tenta ensinar um truque que nunca deve ser apressado. Naturalistas franceses e autores do livro “Pequena Filosofia das Aves”, explicam que a orniterapia é mais uma atitude do que uma atividade.
“O canto funciona como uma âncora”, diz Dubois. “Quanto mais o ouvimos, mais presentes ficamos.”
A ideia parece nova por cá, mas não é um capricho da moda. Em 1979, o médico britânico A. F. Cox escreveu no “British Medical Journal” sobre os efeitos positivos da observação de aves na saúde mental, equiparando-a à medicação usada para reduzir sintomas de stress. Desde então, vários estudos reforçaram a mesma intuição: observar aves desacelera o corpo e reorganiza a mente.
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O casal francês partilha exemplos de pessoas que integraram a orniterapia em processos de luto ou divórcio. “É preciso humildade para esperar”, adiantam. “E o mundo moderno raramente nos permite esperar.”
O coração do Tejo que bate nas salinas
A verdadeira imersão começa no trilho das Salinas do Samouco, um dos mais importantes redutos de biodiversidade do Estuário do Tejo. O caminho serpenteia entre espelhos de água, onde o céu se replica, e manchas de vegetação halófita. A cada curva, novas silhuetas pousam sobre as águas rasas.
“Ali está um alfaiate”, aponta um dos guias, indicando a ave símbolo da Reserva Natural do Estuário do Tejo. Seguem-se os flamingos, que tingem o cenário de rosa, e os patos‑tadorna, únicos na Península Ibérica a usar buracos como ninhos. Há ainda aves limícolas como o perna‑vermelha ou o maçarico‑de‑bico‑direito.
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Dubois explica que identificar os sons é como reconhecer instrumentos numa orquestra, e os participantes experimentam, alguns com a ajuda de aplicações como o Merlin. Aos poucos, os cantos deixam de ser ruído e transformam-se em linguagem.
Do exterior para o spa: a natureza continua
Depois da caminhada, o Spa Cinq Mondes recebe os visitantes num ambiente de luz baixa e aromas cítricos. A experiência continua ali, numa sala onde a banda sonora é composta por aves gravadas no próprio estuário.
Segue-se o tratamento “Esfoliação com Areia e Rio”: 60 minutos que juntam sal fino das salinas locais, areia vulcânica e óleos essenciais. A textura quente é interrompida, por instantes, pelo toque de um leque de penas, um gesto pensado para reforçar a ligação temática ao mundo das aves. O corpo abranda, a mente acompanha.
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Uma mesa que se inspira no voo
Ao final do dia, a experiência continua no restaurante Omaggio. O menu, criado pelo chef Vítor Furtado, assume a influência da avifauna e do ecossistema das salinas.
O jantar de degustação começa com “Ninho da Maré”: pequenos ovos de codorniz recheados com pesto. Depois chega o “À Beira do Tejo”, um risotto de salicórnia onde a planta halófita, colhida nas zonas húmidas, dá o sabor salgado natural.
Seguem-se duas possibilidades para prato principal, sob o nome “As Grandes Migrações”: lombo de robalo em crosta de ervas ou peito de pato braseado. A sobremesa, “Doçura no Ninho”, é um gelado artesanal servido num delicado ninho de massa kataifi. Tudo acompanhado por águas aromatizadas e vinhos biológicos, como o Dona Joaquina.
Quando o bem‑estar se transforma em missão
Além do relaxamento, a mensagem ambiental está sempre presente. “Uma em cada oito espécies de aves está ameaçada de extinção”, lembra Dubois. “Ao conhecermos uma espécie, criamos uma relação com ela. E ninguém protege aquilo que desconhece.”
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A experiência, defende o naturalista, ajuda tanto quem a pratica como os próprios ecossistemas. É, afinal, uma forma de contrariar a “amnésia ecológica”, ou seja, a tendência para nos esquecermos do mundo natural que nos sustenta.
Informações úteis
- Validade: até 31 de março de 2026
- Preço: 270€ para 2 pessoas (inclui estadia, pequeno‑almoço, spa, visita às Salinas do Samouco e refeição temática)
- Localização: Passeio das Caravelas 88, Alcochete
- Contactos: 21 234 3165 | reservas@praiadosal.com
O Expresso ficou hospedado no Praia do Sal Resort & SPA e visitou as Salinas do Samouco a convite do grupo StayUpon.
