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Os ciclos dos homens – SIC Notícias


Saúde e Bem-estar

Texto de Vanessa Vilas-Boas, urologista e andrologista. Ao contrário do ciclo menstrual feminino, os homens não têm um ciclo hormonal mensal. Vanessa Vilas-Boas explica que a testosterona segue sobretudo um ritmo diário e que alterações no humor, energia ou desejo sexual estão mais ligadas ao estilo de vida do que a qualquer ciclo biológico.

Os ciclos dos homens

Henrik Sorensen

A medicina não reconhece um “ciclo masculino” comparável ao ciclo menstrual feminino. O que existe são ritmos hormonais fisiológicos, sobretudo da testosterona.

Ao contrário da mulher, cuja variação hormonal é cíclica e previsível ao longo de cerca de 28 dias, no homem a produção de testosterona é relativamente estável ao longo do mês e o principal ritmo reconhecido é diário (circadiano).

Este padrão inicia-se na puberdade, quando o eixo das hormonas sexuais entra em funcionamento pleno.

Embora existam estudos que comparam ‘ciclos’ hormonais masculinos e femininos, evidenciam claramente as diferenças entre os géneros.

O ciclo feminino é um fenómeno biológico estruturado, com fases hormonais bem definidas (folicular, ovulatória e lútea) ao longo de cerca de 28 dias.

No homem, a produção de testosterona é relativamente estável ao longo do mês e o que se observa é um ritmo circadiano com valores mais elevados desta hormona nas primeiras horas da manhã, um declínio progressivo com a idade e flutuações associadas a fatores externos como stress, doença e privação de sono.

Portanto, falar em “ciclo mensal masculino” é apenas uma construção cultural sem base clínica…

Andropausa

O termo “andropausa” é incorreto e pode ser enganador.

Nos homens saudáveis não ocorre uma quebra abrupta da testosterona comparável à menopausa. O que existe é um declínio gradual da testosterona, em média cerca de 1% ao ano após os 30–40 anos.

Em alguns casos pode surgir um hipogonadismo de início tardio, que é um deficit de testosterona devidamente comprovado e que acarreta vários sinais e sintomas, mas não é universal nem inevitável.

Estas variações podem ter impacto no humor, energia ou libido ao longo do dia, mas de forma mais subtil do que muitas vezes se sugere.

Como a testosterona atinge o pico de manhã, é frequente o homem notar mais energia, iniciativa e maior frequência de ereções matinais.

Ao final do dia, sobretudo em contexto de fadiga acumulada, estes níveis são mais baixos, contudo, em homens saudáveis, estas oscilações raramente causam alterações marcadas de humor.

Quando existem sintomas persistentes – fadiga, diminuição do desejo sexual, irritabilidade – deve investigar-se e não atribuir automaticamente a um “ciclo”.

Nesse caso, pode afetar a relação com a/o parceira/o, sobretudo se houver stress crónico, má qualidade do sono, excesso de trabalho ou doença crónica.

A/o parceira/o pode notar uma menor disponibilidade sexual em períodos de maior cansaço, maior irritabilidade quando existe privação de sono e menor energia física no final do dia.

Mas isto não é um ciclo biológico mensal – é fisiologia associada ao estilo de vida.

Stress e maus hábitos como dormir mal, sedentarismo e excesso de peso podem reduzir a testosterona e afetar o equilíbrio hormonal

INÊS M. BORGES

Sono

O sono é um importante regulador da testosterona, pelo que a privação crónica de sono pode reduzir significativamente os níveis hormonais.

O stress, através do aumento do cortisol, também interfere com o eixo hormonal e pode reduzir a produção de testosterona.

Em termos práticos, dormir mal, viver em stress constante, o sedentarismo e o excesso de peso têm impacto muito superior ao que habitualmente se pensa.

Por isso, é fundamental corrigir de forma permanente os fatores modificáveis, mantendo sono reparador (7–8 horas), exercício físico regular (sobretudo treino de força), controlo do peso, redução de álcool e boa gestão de stress.

Não existe equivalente masculino aos sintomas pré-menstruais.

Alguns homens podem experienciar irritabilidade, fadiga ou menor desejo sexual em determinados períodos, mas isso não corresponde a um padrão hormonal cíclico mensal. O que podem existir são flutuações associadas a fatores externos e não a uma fase biológica programada.

Viktoriya Skorikova

Fertilidade

A fertilidade masculina depende da produção contínua de espermatozoides, que ocorre de forma constante e não cíclica.

O que pode influenciar negativamente a fertilidade são algumas patologias urológicas como o varicocelo (dilatação das veias do cordão espermático), infeções, obesidade, tabagismo, stress crónico e défice hormonal verdadeiro.

Não há um “período do mês” em que o homem seja mais fértil.

Na prática clínica, muitos homens demoram a procurar ajuda pois questões relacionadas com a libido, qualidade das ereções e fertilidade ainda são temas sensíveis e envolvidos por algum estigma.

Porém o maior problema não é a vergonha, mas sim a a normalização excessiva dos sintomas, atribuindo-os apenas ao avançar da idade e com isso o atraso na avaliação e potencial tratamento.



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