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Um pedaço de um navio português que naufragou em 1794 perto da Cidade do Cabo com escravos de Moçambique para o Brasil vai ser devolvido à África do Sul depois de anos exposto no museu Smithsonian, em Washington.
Pedaço de madeira com 15 quilos que integra a exposição “Escravatura e Liberdade”
Jacquelyn Martin/AP
A peça trata-se de um pedaço de madeira com 15 quilos que integra a exposição “Escravatura e Liberdade” desde que o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana abriu, em 2016, por empréstimo dos museus Iziko, da África do Sul.
Segundo a agência Associated Press (AP), que noticiou em primeira mão o fim do empréstimo, o último dia para ver a peça em Washington vai ser sábado, sendo depois substituída por um manifesto da carga do navio.
Outros bens do navio vão continuar em exposição, antes de ser devolvidos à África do Sul dentro de dois anos.
A diretora-adjunta do museu, Michelle Commander, reconheceu à AP que o ‘timing’ da devolução poderia suscitar questões, tendo em conta a pressão que a Casa Branca tem colocado sobre algumas instituições culturais que lidam com História, mas sublinhou que o retorno da peça tem que ver apenas e só com os termos do acordo.
Ainda assim, Commander realçou que “a história não abandona o museu porque um pedaço de madeira vai ser devolvido aos donos”.
O relato da AP refere que o interesse pelo museu é tanto que filas se acumulam para entrar na galeria onde os objetos do navio se encontram: “A natureza tangível da exposição retira-a dos manuais escolares e trá-la à realidade”, disse uma visitante, que estava a acompanhar o filho de 7 anos e os colegas de escola.
Naufrágio do navio São José
O São José foi o primeiro navio de tráfico de escravos a ser descoberto por investigadores e consequentemente estudado, depois de identificado em 2015 pelo projeto internacional Slave Wrecks, que reúne múltiplas instituições mundiais, desde o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana do Smithsonian, em Washington D.C., nos Estados Unidos da América, aos Museus Iziko da África do Sul, entre outros.
Hoje, é possível saber que o São José, propriedade do português José António Pereira, partiu da Ilha de Moçambique, no dia 03 de dezembro de 1794, com 512 moçambicanos cativos a bordo, em direção ao Maranhão, no Brasil, mas que, no dia 27 do mesmo mês, foi apanhado por uma tempestade perto da Cidade do Cabo, na África do Sul, e afundou-se a 100 metros da costa, como se lia no ‘site’ do Slave Wrecks Project.
A tripulação foi toda salva, mas da “mercadoria”, dos 512 escravos a bordo, só cerca de 300 terão sobrevivido ao naufrágio, para voltarem a ser vendidos.
Como recorda o Slave Wrecks Project, “o tráfico de escravos transatlântico foi a maior migração forçada de pessoas na história do planeta. Desde 1400, mais de 12 milhões de africanos foram capturados e traficados pelo mundo Atlântico. Por altura de 1700, sete milhões de africanos haviam sido traficados para as Américas”.
