A família de Tiago Martins, o português baleado pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) a 24 dezembro do ano passado, falou, na nos últimos dias, sobre os cuidados médicos que o homem está a receber sob custódia federal, cuidados estes que serão precários. O homem, de 30 anos, foi baleado nas costas e na zona da coxa.
“Este é mais um exemplo trágico do uso excessivo da força por parte do ICE, que estamos a ver a aumentar a um ritmo alarmante em todo o país”, disse a advogada Alice Barrett, citada pela NBC4 Washington
De acordo com a advogada, Tiago Martins não recebeu consultas de acompanhamento e tem tido dificuldades em receber a medicação necessária e cuidados, durante o tempo em que está detido – primeiro, sob custódia do ICE e, agora, numa prisão de Maryland.
“Durante dias, deixaram-no num estado em que ele não estava a receber a medicação devida ou mudanças de curativos. Foi precisa muita insistência para que ele chegasse ao ponto em que seus curativos começassem a ser trocados regularmente”, explicou a advogada.
A advogada diz ainda que Tiago Martins quer justiça pelo que se passou, mas que a prioridade é agora ter acesso aos cuidados médicos adequados.
A publicação norte-americana cita ainda a companheira de Tiago Martins, que pediu para não identificada. Esta mulher, com quem Tiago Martins tem dois filhos, falou do impacto que esta situação teve na sua família, nomeadamente, às crianças, a quem disseram que o pai estava a fazer uma viagem demorada. “O meu filho mais velho continua a perguntar-me até agora: ‘Onde está o meu pai'”, contou, em espanhol.
Segundo o que esta mulher explicou, ela demorou uma semana a falar com Tiago Martins depois da detenção, que aconteceu na localidade de Glen Burnie, em Maryland. “Ele não conseguia respirar. A bala fez alguma coisa no seu corpo que o está a impedir de respirar bem”, atirou.
A advogada adiantou ainda que lhe dizem na prisão onde Tiago está que ele apenas está a tomar Tylenol [paracetamol] com um relaxante muscular. A equipa de advogados estará a tentar que Tiago Martins faça outro raio-x para perceber se continua a ter fragmentos de balas, assim como a insistir para a fisioterapia.
“Recentemente, sentiu uma dor imensa quando lhe pediram apenas para carregar uma saco com algumas sopas prontas para aquecer no refeitório. Consegue-se imaginar a dor e a angústia de não saber se poderá carregar seu filho de um ano quando finalmente for libertado?”, perguntou a advogada.
O Departamento de Segurança Pública e Serviços Correcionais de Maryland foi questionado sobre o assunto, tendo um porta-voz dito que não pode comentar casos específicos, mas que os funcionários trabalham de forma “árdua” para que os detidos recebam os cuidados médicos necessários.
Como foi Tiago Martins atingido? As duas versões
Note-se que, de acordo com o que apontam os registos do tribunal, citados pela publicação norte-americana, os agentes do ICE não procuravam Tiago Martins quando tudo aconteceu, na véspera do Natal. Os agentes ter-se-ão cruzado com a carrinha de Martins e, verificada a matrícula com informações do departamento de Segurança Interna, perceberam, segundo o que contam as autoridades, que os registos indicavam que o português já tinha excedido o prazo legal do seu visto desde 2008.
Segundo um depoimento do FBI, Tiago Martins chegou aos Estados Unidos para visitar o pai quando ainda era uma criança, e este ter-lhe-á dito que não voltaria para Portugal. De acordo com o que contou ao FBI, já tinha mesmo comprado uma casa e estava no processo de se tornar um cidadão norte-americano.
O depoimento do agente do FBI aponta ainda que as versões dadas por Tiago Martins e os agentes do ICE divergem, tendo o português contado que os agentes o cercaram na sua carrinha, e que pareciam “irritados”, assim como “gritaram com ele em espanhol.” Ele tê-los-á informado de que falava inglês. Tiago Martins afirmou ainda que acreditava que os agentes do ICE iam disparar contra ele e que foi por isso que ele continuou a conduzir a carrinha, entre dois prédios.
Já os agentes do ICE contaram que Tiago Martins recusou sair do veículo e que, por isso, partiram a janela para o tentar puxar. Contaram ainda que ele atingiu o seu carro e que, temendo pela vida, dispararam.
Apesar das versões diferentes, é certo que Tiago Martins foi baleado na coxa esquerda e na parte superior das costas antes de sua carrinha chocar contra uma árvore. O português enfrenta agora acusações federais por destruição de propriedade do governo, assim como por resistência à detenção.
