Cultura

Próteses tricotadas "devolvem a dignidade" sobreviventes de cancro da mama no Quénia


Olhares pelo Mundo

Uma sobrevivente de cancro da mama transformou o tricô em projeto solidário de apoio a mulheres que fizeram mastectomia no Quénia. As próteses tricotadas que produz são muito mais baratas do que as de silicone e já ajudaram centenas de sobreviventes que não têm acesso à reconstrução mamária.

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Nos países onde as próteses de silicone são caras e a cirurgia de reconstrução mamária está fora do alcance da maioria da população, muitas sobreviventes de cancro da mama ficam sem alternativas. No Quénia, uma mulher encontrou uma solução diferente: próteses tricotadas à mão.

Mary Mwangi, também sobrevivente da doença, criou um pequeno negócio que produz e vende estas próteses, oferecendo uma opção mais acessível para mulheres submetidas a mastectomia, a remoção total da mama.

Quando recebeu o primeiro diagnóstico de cancro, Mary Mwangi pensou que a morte estava próxima, contou à Associated Press.

“Quando recebi o diagnóstico, fiquei devastada e cheguei a recusar o tratamento, porque só pensava na morte. Nunca tinha visto uma sobrevivente de cancro da mama ou de qualquer outro tipo de cancro. A única mulher que conhecia com cancro da mama tinha morrido em novembro de 2017. Eu recebi o diagnóstico em janeiro de 2018″.

Durante a recuperação, retomou um antigo hobby, o tricô, sem imaginar que essa atividade viria a ter impacto na vida de milhares de mulheres.

A ideia surgiu quando comprou uma prótese de silicone.

“A prótese custou 22.000 xelins quenianos. Nessa altura eu já participava num grupo de apoio e via muitas sobreviventes com seios simétricos. Então comecei a perguntar-me quantas mulheres poderiam pagar esse valor, considerando que o tratamento já é muito caro e muitas não têm condições para o pagar”.

Os 22.000 xelins quenianos correspondem a cerca de 170 dólares, aproximadamente 145 euros, um valor superior ao salário semanal médio de muitos trabalhadores urbanos, segundo o Inquérito Integrado ao Orçamento Familiar do Quénia.

O cancro da mama é o tipo de cancro mais diagnosticado entre as mulheres no Quénia. Todos os anos são identificados cerca de 6.000 novos casos.

Segundo o Ministério da Saúde, mais de metade das doentes chega ao diagnóstico numa fase avançada da doença. O elevado custo do tratamento continua a ser um dos principais obstáculos.

O Instituto Nacional do Cancro do Quénia indicou que o preço de uma sessão de tratamento poderá baixar de cerca de 160.000 para 40.000 xelins quenianos, o equivalente a aproximadamente 310 dólares, ou cerca de 266 euros por sessão.

Num país onde cerca de 40% da população vive abaixo do limiar da pobreza, estes valores continuam a representar um grande peso financeiro.

Um grupo de apoio através do tricô

Hoje, Mary Mwangi trabalha num pequeno espaço de costura partilhado em Thika, nos arredores de Nairobi. Ali ensina outras mulheres a tricotar próteses, no grupo que batizou de Guerreiras Contra o Cancro da Nova Aurora.

Algumas das participantes conseguem ganhar dinheiro com esta atividade. Para outras, o tricô funciona sobretudo como forma de lidar com o impacto emocional da doença e da perda de uma mama.

Eglah Wambui, também sobrevivente de cancro da mama e membro do grupo, diz que o convívio entre mulheres com experiências semelhantes faz a diferença.

“Quando tricotamos, conversamos com outras sobreviventes. Falamos de muitas coisas. Tricotar acaba por ser uma espécie de terapia, porque não estamos sempre a pensar no cancro”.

Nancy Waithera, professora de ciências do ensino secundário, conheceu Mwangi antes da cirurgia. O contacto ajudou-a a preparar-se para a vida após a mastectomia.

Quando recebeu o diagnóstico, a notícia foi devastadora. O marido tinha morrido pouco tempo antes.

“Quando fiz a biopsia e recebi os resultados, disseram-me que tinha cancro da mama em fase 2. Tudo ficou escuro. O meu mundo virou-se de pernas para o ar. Tinha acabado de perder o meu marido. Quando o médico nos diz que temos cancro, o que nos vem logo à cabeça é a morte”.

Depois da cirurgia, aguardou ansiosamente que a cicatriz cicatrizasse para poder usar a prótese de malha.

“Quando me disseram que já podia colocá-la, senti como se tivesse renascido. Foi como um segundo nascimento. Senti que a Nancy tinha regressado. O meu ego foi restaurado. A minha dignidade foi restaurada. Os meus amigos diziam que nem conseguiam perceber de que lado tinha sido a cirurgia. Podem imaginar como me senti”.

As próteses tricotadas custam cerca de 10 dólares, aproximadamente 8,5 euros, cerca de um sexto do preço das próteses de silicone no país. São preenchidas com uma fibra semelhante à utilizada nas almofadas, um material leve e macio ao toque.

O grupo vende as próteses a organizações que depois as distribuem gratuitamente a sobreviventes que não têm capacidade financeira para as comprar. Nos últimos três anos, já foram vendidas mais de 600 unidades.

Para Mwangi, o cancro deixou de ser uma sentença de morte e quer expandir o projeto e formar mais mulheres na produção destas próteses, e levar esperança e dignidade a quem enfrenta a doença.



SIC Noticias

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