[
EXCLUSIVO
Rita Barbosa, de 24 anos, criou a aplicação “Guardião”, um sistema que utiliza inteligência artificial para identificar e bloquear chamadas potencialmente fraudulentas. O projeto nasceu depois de a avó ter perdido quatro mil euros numa burla telefónica e está agora a dar os primeiros passos para uma parceria com a PSP, com o objetivo de reforçar a prevenção e o combate a este tipo de esquemas.
Loading…
Durante meses, a avó de Rita Barbosa foi alvo de inúmeros telefonemas de números desconhecidos, todos com o mesmo objetivo: enganá‑la e retirar‑lhe dinheiro. Numa dessas chamadas, alguém percebeu que do outro lado estava a “vítima perfeita”: uma pessoa idosa, que vivia sozinha e suscetível a cair no esquema.
Apesar de já ter sido enganada no passado, nunca tinha perdido uma quantia tão elevada. Desta vez, convenceram‑na a comprar quatro filtros de água, cada um vendido por 1.000 euros, quando no mercado podem custar pouco mais de 20 euros.
Numa única chamada, perdeu 4.000 euros e, mais do que o prejuízo financeiro, desenvolveu um medo persistente de atender o telemóvel e perdeu grande parte da autonomia que tinha no dia a dia: “Na nossa família marcou-nos imenso, porque muitas vezes telefonávamos e ela tinha receio de atender qualquer chamada, com medo de ser burlada novamente”, recorda Rita.
Um retrato duro que espelha a realidade de muitos idosos portugueses, que todos os dias recebem chamadas fraudulentas cada vez mais sofisticadas e difíceis de identificar.
De Portugal para o maior hackathon de IA da Alemanha
Rita decidiu inscrever‑se no maior hackathon de IA da Alemanha que reuniu cerca de 450 participantes, provenientes de 48 países, e mais de uma centena de projetos: “Percebi que seria um grande evento, com empresas como a Google e a OpenAI, e fui já com o intuito de transformar o meu sonho em realidade.”
Em apenas 48 horas, entre 31 de janeiro e 1 de fevereiro, a jovem portuguesa desenvolveu o “Guardião”: uma aplicação que, como o próprio nome indica, pretende proteger (para já) outros idosos: “Se eu tivesse sido a guardiã da minha avó, teria sido incrível”, admite.
Apesar de o objetivo não ser vencer o evento, mas sim criar algo que ainda não existia e pudesse mudar a vida de muitos “avôs e avós”, Rita acabou por conquistar o 1.º lugar e um prémio de 70 mil dólares (cerca de 60 mil euros) em créditos e planos: “A minha avó sempre foi a minha fã número um e tenho a certeza de que ficaria muito feliz.”
Como funciona o “Guardião”?
O projeto impede e deteta burlas feitas através de chamadas ou mensagens recorrendo a Inteligência Artificial (IA). Todo o processo é invisível para o utilizador: quando entra uma chamada, esta é automaticamente intercetada e analisada. Se forem identificados sinais de fraude, a aplicação termina a comunicação de imediato.
Para já, não será possível identificar a origem exata das chamadas, uma vez que a legislação atual e as normas de privacidade não permitem o acesso a esse tipo de informação.
O sistema inclui ainda um componente de acompanhamento familiar. Para além da análise automática, existe uma aplicação complementar que permite aos familiares consultar o histórico de chamadas, alertas e eventuais tentativas de burla.
Como é garantida a segurança e a privacidade dos dados?
Estas são duas prioridades absolutas no desenvolvimento do “Guardião”. Como explica a engenheira, todos os dados pessoais permanecem exclusivamente no telemóvel do utilizador e nunca são partilhados com terceiros.
A única informação enviada para análise externa são os números associados a potenciais tentativas de burla, permitindo identificar padrões e reforçar os mecanismos de prevenção.
Uma das grandes novidades deste projeto é a colaboração com a Polícia de Segurança Pública (PSP), que procurou Rita para desenvolver uma parceria com o Núcleo de Cibercrime. Neste caso, serão partilhados apenas os dados necessários sobre números suspeitos, permitindo acelerar a identificação de esquemas fraudulentos e reforçar o combate a este tipo de burlas.
Quando e onde estará disponível?
A aplicação ainda não foi lançada oficialmente. Embora não exista uma data definida para o lançamento, começará a ser testada já a partir de março, numa fase piloto que envolverá cerca de mil utilizadores.
As inscrições para participar neste teste estão abertas em www.stopburlas.pt, onde qualquer pessoa se pode candidatar para experimentar o “Guardião” e contribuir para o seu desenvolvimento.
Na mesma página, através de um formulário anónimo, é ainda possível partilhar o seu testemunho sobre golpes telefónicos ou relatar situações em que tenha prestado apoio a alguém que tenha sido vítima.
Quando chegar ao mercado, a aplicação estará disponível gratuitamente na Google Play Store, numa primeira fase apenas para telemóveis Android.
Proteger primeiro cá dentro, crescer depois lá fora
Desde o primeiro momento, Rita soube que queria lançar o “Guardião” em Portugal. Foi no seu país de origem que o “problema começou” e é aos portugueses, especialmente aos mais vulneráveis, que quer devolver a tranquilidade de poder atender uma chamada ou responder a uma mensagem sem o receio de serem vítimas de burla.
Ainda assim, o projeto tem ambição para ir mais longe. Depois de consolidar a aplicação no mercado nacional, Rita pretende expandi‑la para outros países europeus. No futuro, ambiciona colaborar com entidades como o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS). Num horizonte mais alargado, pretende ainda estabelecer parcerias com organismos internacionais como a Europol e a Interpol.
Neste momento, além da proposta que recebeu por parte da PSP, a jovem portuguesa recebeu também um convite para uma possível visita a Silicon Valley, berço de algumas das maiores empresas tecnológicas do mundo, como a Apple, a Meta e a Google.
