Agronegócio

Quando a água é escassa, a agricultura é um “utilizador como os outros” … ou um setor estratégico que deve ter prioridade?


Escrever sobre escassez de água quando chove e as albufeiras sobem e muitas delas estão à cota máxima, parece provocação. Mas é precisamente nestes momentos de “abundância” que se evitam os conflitos do próximo período de escassez. Quando a água corre, a política costuma adiar, quando a água falta, a política improvisa e o país divide-se.

Quando a água é escassa, a agricultura não pode ser tratada apenas como “mais um utilizador”, nem pode reclamar prioridade automática. Deve ser reconhecida como setor estratégico condicionado por regras claras. Prioridade sim, mas ganha por eficiência, valor social, transparência e responsabilidade ambiental, não por hábito, ruído ou lobby.

A água é um bem comum, mas o seu uso nunca é neutro. Em anos de normalidade hídrica, todos parecem concordar com isso; em anos de seca, todos descobrem que “bem comum” significa escolhas duras. O problema não está na divergência, está no facto de a divergência ser resolvida tarde demais. Se a gestão só começa quando a torneira aperta, o debate transforma-se em moralismo: uns acusam a agricultura de “gastar”, outros acusam a sociedade de “querer comer sem produzir”. Nenhum desses slogans resolve um sistema.

A agricultura tem, sim, uma especificidade que a distingue. Não é apenas consumo, é produção de alimentos, emprego, exportações, paisagem, gestão do território e continuidade de cadeias de valor que não se montam e desmontam de um ano para o outro. Todas as fileiras, das mais intensivas às mais extensivas, dependem de previsibilidade. Um corte de água pode significar, perder uma campanha, abater efetivos, falhar contratos, comprometer qualidade, destruir capital produtivo e afastar investimento por anos. Isto não torna a agricultura “dona” da água, torna-a estratégica.

Mas estratégico não significa intocável. A água também sustenta ecossistemas, abastecimento humano e atividades económicas diversas. Tratar a agricultura como “prioridade automática” seria socialmente explosivo e tecnicamente perigoso: incentiva o desperdício e perpetua modelos pouco adaptados ao risco climático. O que faz sentido é outra coisa: uma prioridade condicionada. Em cenário de escassez, deve ter vantagem quem comprova eficiência, quem reduz perdas, quem usa tecnologia e boas práticas, quem protege solo e matéria orgânica (porque solo saudável é “reservatório”), quem diversifica risco e quem entrega mais valor por unidade de água, não apenas mais volume.

É por isso que a conversa difícil deve acontecer agora, com água disponível: para desenhar regras antes da emergência. Regras significam planos de contingência com escalões, metas e gatilhos: o que acontece quando se entra em pré-alerta, alerta e crise; como se fazem reduções proporcionais; que usos são protegidos e em que condições; como se evitam cortes “cegos” que punem quem foi eficiente e premiam quem foi negligente. E significam também medição séria: sem dados de captação, distribuição, perdas e consumos, a gestão vira opinião. Transparência não é castigo; é o único antídoto contra a suspeita.

Finalmente, há um ponto moral que não pode ser varrido para debaixo do tapete: a sociedade quer simultaneamente alimentos acessíveis, padrões ambientais elevados e água garantida para tudo, mas raramente aceita o custo dessa combinação. Se a agricultura é estratégica, então é justo exigir-lhe eficiência e responsabilidade. Mas também é justo que as políticas públicas reconheçam que investir em modernização, armazenamento, reutilização, redes, conhecimento e governança é mais inteligente do que gastar energia a escolher culpados quando a água falta. O país não precisa de “um vencedor” no conflito da água; precisa de um sistema que reduza conflitos.

A pergunta não é se a agricultura é “um utilizador como os outros” ou “o setor que manda”. A pergunta séria é: que prioridade queremos comprar e com que condições? Se esperarmos pela próxima seca para responder, a resposta será sempre a pior: apressada, injusta e divisiva. É agora, com água disponível, que se decide se no futuro teremos escassez gerida… ou escassez disputada.

Decidir bem, é a nova produtividade.

António Martins Bonito

Agricultor | Professor no IPVC

Agricultura à Deriva: Porque Insistem em Governar o Campo Desde o Gabinete?



AgroPortal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *