Economia

Quase 20% dos idosos vivem na pobreza em Portugal, muitos moram em quartos alugados porque não conseguem pagar uma casa

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Pensões baixas e rendas altas estão a dificultar a vida a muitos idosos. Sem dinheiro para manter uma casa, acabam a viver em quartos alugados e, por vezes, obrigados a recorrer a empréstimos para pagar despesas essenciais.

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Quase 20% dos idosos em Portugal vivem na pobreza. Entre os mais velhos cresce também o recurso ao crédito para pagar despesas básicas, como a habitação. No fim da vida, há quem viva apenas num quarto por não conseguir suportar o custo de uma casa.

Mariana, de 80 anos, passa os dias no Centro Paroquial de Santa Catarina, em Lisboa. Ali combate a solidão e ocupa o tempo com atividades que estimulam a mente e as mãos. O centro tornou-se um ponto de encontro e também um abrigo, uma extensão de casa para quem, na realidade, tem apenas um quarto para viver.

“Ocupo o tempo. Faço aquelas coisas que a Isabel ensina. Com 80 anos é que ando a aprender coisas que não fazia”, conta.

Ao longo da vida, Mariana trabalhou numa fábrica de cortiça, fez limpezas e serviu em casas. Teve família e teve casa. Hoje vive num quarto exíguo.

“Entro e bato logo com os pés na cama. A cama é pequena, é corpo e meio. Tenho um móvelzinho todo partido, a televisão em cima do móvel e um roupeiro pequeno”, descreve.

Veio do Alentejo para Lisboa com outras expectativas.

“Gostava de ter uma casa? Gostava, mas não tenho dinheiro. Já é difícil para o quarto”, diz Mariana que faz e refaz as contas todos os meses.

A realidade é acompanhada de perto por Carolina Spínola, diretora do centro, que há mais de uma década trabalha com utentes do Bairro Alto, São Bento e Bica. Situado na Calçada do Combro, em pleno centro lisboeta, o centro de dia encontra-se numa zona fortemente pressionada pela especulação imobiliária.

“Devido ao aumento das rendas e às pensões que os nossos utentes têm, fica difícil ter qualidade de vida a partir dos 65 anos”, explica.

Segundo a responsável, o impacto das subidas é visível.

“Nota-se quando chega uma carta de aumento do senhorio, passam meses a fazer contas à vida (…) Deviam estar numa fase tranquila, depois de uma vida de preocupações, mas continuam com problemas.”

Os idosos são um dos grupos mais vulneráveis. No gabinete de sobre-endividamento da DECO, os pedidos de apoio relacionados com créditos para habitação representam 15% do total, um aumento de 10% num ano.

E nem sempre os quartos arrendados oferecem condições dignas.

“Depende do quarto. Desde sem ventilação, sem janelas, só com espaço para uma cama (…) Temos casos de quartos que parecem dispensas e pagam 400 euros”, relata Carolina Spínola.

Segundo o estudo Portugal Desigual, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, quase 20% da população idosa vive na pobreza. Embora o panorama tenha melhorado, os idosos sem filhos são os agregados com maior taxa de pobreza, 27%. Por categoria profissional, os reformados representam 16,4%.

Também Isabel, de 64 anos, conhece essa realidade. Trabalha no centro e conta os dias para a reforma, altura em que espera regressar a Elvas.

“Arranjar lá uma casinha, pode ser pequenina“, idealiza.

Até há dois anos vivia num apartamento, mas deixou de o conseguir pagar. Hoje, fora do horário de trabalho, passa a maior parte do tempo no quarto.

“Faço o meu comerzinho e fico no quarto a ver televisão. Tenho de me aguentar. Perco muita coisa. Numa casa podia mexer-me mais. Ali é aquele espacinho e pronto.” Considera injusta a situação, mas admite resignação. “Como é que eu pago uma casa? Tenho essa consciência.”

Histórias como as de Mariana e Isabel repetem-se. Rendimentos baixos que, pressionados pela subida das rendas e dos preços, deixaram de chegar para as despesas. Num instante perde-se o principal espaço de privacidade e liberdade.

“Se tivesse casa, tinha cá o meu filho, a minha nora e os meus netos. Agora estou privada disso. Fico triste”, confessa Isabel.

Mariana também mantém o sonho de ter uma casa.

“O meu maior sonho era ter uma casa, mas só se me saísse o Euromilhões.”



SIC Noticias

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