Às segundas e sextas-feiras, num estúdio improvisado montado na Unidade de Reabilitação Psicossocial do Hospital Júlio de Matos, estes homens e mulheres da rádio gravam o programa que dá voz a quem vive com um diagnóstico de saúde mental, uma iniciativa pioneira em Portugal.
A agência Lusa assistiu a uma emissão da Rádio Aurora – A outra Voz, em que, à volta da mesa de gravação, os 14 locutores estão acompanhados por Nuno Faleiro Silva, psicólogo e coordenador do projeto, que orienta discretamente a emissão.
Entre microfones, computador e uma mesa de mistura, alguns seguram blocos de notas com pensamentos e poemas, que leem quando a palavra lhes chega.
A primeira a falar é Cláudia Mateus que, com uma voz calma, apresenta aos ouvintes a Rádio Aurora, “um projeto pioneiro em Portugal” destinado a “lutar contra o estigma e a discriminação” associados à saúde mental.
O debate arranca com o tema escolhido por todos: A frustração. Durante quase 90 minutos, os microfones circulam, difundindo as reflexões dos locutores, apenas interrompidos momentaneamente pelo ruído dos aviões ou por um gesto de Nuno Silva a indicar que está na hora de passar a palavra.
Quando chega a sua vez, Cláudia fala do que, para si, é a frustração: “É ver alguém a sofrer e não conseguir ajudar”, “ser vista como maluca ou incapaz” ou sentir-se “excluída na sociedade”.
No final, contou à Lusa que o estigma se faz sentir até nos “amigos de longa data”, que se afastam após conhecerem o diagnóstico.
“Ainda há muito caminho a percorrer, muito estigma, muito preconceito que tentamos combater na rádio, dando-nos a conhecer à comunidade”, afirmou.
Para Cláudia, a comunicação social tem “uma quota-parte” na perpetuação do estigma ao enfatizar episódios de agressividade ou perigosidade que envolvem doentes mentais, quando a percentagem de pessoas violentas com doença mental é inferior à da população em geral.
A rádio nasceu a 06 de março de 2019, no entretanto extinto Hospital Miguel Bombarda, e foi inspirada noutras rádios que existem na Europa e na América do Sul.
Nuno Faleiro Silva contou que assistiu, juntamente com dois colegas, ao documentário sobre uma rádio em Barcelona, que dava voz e visibilidade às pessoas com problemas de saúde mental, com uma participação mínima dos técnicos, para perceber o que têm a dizer sobre os tratamentos, sobre a doença mental, sobre a vida.
Seguiu-se uma visita à rádio Nikosia, em Barcelona, de onde foi transmitido o primeiro programa português: “Foi mais fácil transmitir em Barcelona do que em Portugal, apesar de depois termos encontrado muita abertura”, recordou.
Hoje, a Rádio Aurora — A Outra voz, nome escolhido coletivamente, é transmitida em 15 estações de rádio do país, incluindo a Antena 1, salientou o psicólogo na Unidade de Reabilitação Psicossocial da ULS São José (Hospital Júlio de Matos).
Os temas e convidados são decididos democraticamente. “O que nos interessou foi construir um espaço o mais livre possível”, realçou.
O projeto tem as portas abertas a todos: Pessoas internadas, em tratamento ou sem ligação à saúde mental. “Qualquer pessoa que queira pensar connosco, que se aproxime e que construa connosco um programa de rádio em colaboração, em cooperação, lado a lado”, desafiou o psicólogo.
Cláudia Mateus integra a rádio há 16 anos. Com um sorriso e um brilho nos seus grandes olhos azuis, contou que conheceu o projeto através do namorado, que conheceu no Hospital de Dia do Hospital Miguel Bombarda.
“Nunca quis ir porque estava com os meus problemas e pensava: Estar a ouvir mais malucos? Reconheço que era autoestigma, que era eu que estava muito fechada e já bastava a minha dor”, confessou.
Nos dias em que o namorado participava, Cláudia esperava por ele num “restaurantezinho muito simpático” a beber chá, até que um dia decidiu acompanhá-lo: “Fui para experimentar e adorei. Nunca mais deixei de ir”.
O que mais a marcou foi perceber que todas as vozes contam. “Entre nós não há estigma, não há preconceito, há fraternidade, há amizade. Isso é uma coisa fantástica da Rádio”.
Mesmo que o discurso pareça “um disparate”, todos se calam para ouvir, disse a locutora, recordando que, no primeiro internamento, ninguém quis ouvir a sua história: “Deram-me logo um diagnóstico e a pessoa passa a ser vista à luz desse diagnóstico e perde a credibilidade”.
Sara Stone está na rádio há seis anos. “Vim, experimentei e gostei”, disse, contando, com entusiasmo, que ali descobriu a sua vocação como locutora e ficou “mais autónoma e proativa”.
“É um por todos e todos por um. Não fazemos discriminação entre nós de títulos ou de ideias. Funcionamos como um grupo de apoio, como uma comunidade saudável”, realçou.
Na rádio também se constroem amizades, como contou Sara: “Nós damo-nos ao grupo e o grupo dá-se a nós”.
Ruben Cruz participa há quase há sete anos na Rádio Aurora. Conheceu o projeto numa visita de estudo promovida pelo Hospital de Dia do Hospital de Vila Franca de Xira.
“Fiquei apaixonado, fiquei rendido a esta maneira diferente de abordar a saúde mental” e combater o estigma.
Salientou que a doença mental, ao contrário das físicas, não é visível. “Podemos ir ao médico tratar das mãos, das pernas, dos braços, mas observar o que está dentro de nós, o que nos está a atormentar, é mais difícil” e talvez por isso haja menos compreensão e algum estigma e preconceito.
Por isso, disse Rúben, o objetivo da rádio “é desestigmatizar e abrir consciências” para uma forma diferente de se abordar a saúde mental e também provar que estas pessoas conseguem trabalhar em conjunto e “fazer coisas maravilhosas”.
“Apesar dos nossos problemas, sabemos que, com a orientação certa e com o caminho que desbravamos, somos capazes de fazer coisas maravilhosas e esta rádio é uma prova disso”, comentou Rúben, com orgulho do trabalho feito.
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