Agronegócio

Risco climático, Agricultura e ESG


O recente fenómeno climático extremo que assolou Portugal, voltou a afetar a agricultura e expôs, mais uma vez, uma realidade que não pode ser ignorada: o risco climático é uma variável económica e financeira estrutural. Não se trata de choques recorrentes, mas de um contexto de risco em mutação, em que fenómenos ainda raros tendem a tornar-se mais frequentes, afetando rendimentos, ativos, investimento e estabilidade financeira. Foram estimados 775 milhões de euros de prejuízos no setor agrícola e florestal, que muito provavelmente estarão subavaliados.

O impacto das alterações climáticas tem sido sistematicamente abordado como um tema ambiental ou, no limite, social, muitas vezes politizado, quando é na sua essência uma questão de governance, estratégia e gestão de risco. Risco climático não é ideologia. É economia e bem-estar.

Essa abordagem é insuficiente, nomeadamente no setor agrícola dada a sua exposição e vulnerabilidade aos eventos climáticos. A crescente frequência e intensidade de fenómenos extremos traduz-se em maior volatilidade de rendimentos, degradação de ativos produtivos (incluindo o capital natural) e aumento significativo do risco, incluindo o de crédito. Para bancos e seguradoras, o clima deixou de ser um “fator de contexto” e passou a ser uma variável crítica. O mesmo tem de acontecer para agricultores, cooperativas, e demais agentes económicos.

É precisamente aqui que o enquadramento ESG ganha relevância, desde que aplicado com rigor e foco na materialidade. O pilar Ambiental (E) tem sido o mais visível, associado a questões como o stress hídrico, erosão do solo, e outros impactos nos ecossistemas que culminam em perda de produtividade e impacto direto nos rendimentos agrícolas. Mas, a verdadeira falha está na Governance (G). Promover modelos agrícolas sem incorporar cenários climáticos robustos é, do ponto de vista económico, uma desadequada gestão do risco. Continuar a financiá-los e a subsidiá-los, também.

O setor financeiro começou a reconhecer a nova realidade climática na determinação do risco, para todos os setores. Bancos centrais, supervisores, seguradoras, bancos, investidores estão a integrar riscos físicos e de transição nos seus modelos, recorrendo à ciência climática, a modelação de cenários e a testes de stress. O objetivo é claramente evitar a subavaliação do risco e a consequente acumulação de perdas nos balanços. Este movimento não é ideológico — é prudencial.

A agricultura é um setor particularmente exposto. Vinhas, pomares, olivais, estufas ou infraestruturas de regadio são ativos de longo prazo e investimentos pensados para décadas. Quando o clima se torna estruturalmente mais instável, esses ativos enfrentam risco de desvalorização antes do fim da sua vida útil. Isto afeta decisões de investimento, encarece o financiamento e reduz a atratividade do setor.

A dimensão Social (S) do ESG reforça este diagnóstico. A instabilidade crescente do rendimento agrícola pressiona mecanismos de apoio público, fragiliza economias regionais e territórios, e aumenta a necessidade de fundos de calamidade após cada evento extremo. O que começa como uma perda climática no campo, acaba por se traduzir num custo orçamental para o Estado. As perdas são compensadas por apoios públicos, não apenas por razões económicas, mas porque a agricultura desempenha a função social essencial de produção de alimentos. A esta dinâmica pode acrescer a instabilidade dos preços dos bens alimentares, com impactos diretos no bem-estar das famílias e na inflação.

É neste ponto que a política pública também precisa de se alinhar. Enquanto o setor financeiro avança na quantificação e integração do risco climático, pressionando, em cascata, as empresas para tal, muitas políticas (agrícola, ordenamento do território, etc) continuam a tratar eventos extremos como exceções e não como parte de uma nova normalidade.

É certo que uma parte de prejuízos não poderão ser evitados, mesmo com planeamento e adoção de medidas de adaptação, e os apoios de emergência serão sempre necessários e muitas vezes insuficientes. Mas, sem incorporar risco climático nos critérios de investimento público, nos sistemas de seguros, na gestão da água e no desenho dos incentivos, a política pública estará a reforçar a exposição futura, em vez de a mitigar. É importante canalizar capital público e privado para modelos de resiliência, assentes em práticas de agricultura climaticamente inteligente. As empresas agrícolas precisam de capital para essa transição.

Neste contexto, aplicar ESG na agricultura não é produzir mais relatórios, nem adotar uma linguagem vaga. É alinhar práticas com finanças responsáveis: usar ciência climática, incorporar cenários de risco, diferenciar incentivos, orientar capital (público e privado) para modelos produtivos resilientes. O foco tem sido colocado nas ações de mitigação orientadas para a descarbonização, e que são bastante importantes, mas importa reforçar as medidas de adaptação e a inovação tecnológica que as aceleram.

Ignorar a realidade não elimina o risco, apenas o transfere e amplifica. Num contexto de mudança do clima, tratar o risco climático como risco económico e financeiro não é uma opção, nem tão pouco ideologia. É uma condição mínima de boa governação nas empresas e na política pública.

Georgete Félix

Consultora na área de sustentabilidade e ESG. Doutoranda em Ciências da Sustentabilidade, com Mestrado em Gestão.

Setor Cooperativo, Desenvolvimento Sustentável e ESG



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