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Símbolos misteriosos em objetos com 40.000 anos podem ser precursores da escrita


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Humanos do Paleolítico podem ter utilizado marcas gravadas para codificar informação dezenas de milhares de anos antes dos primeiros sistemas de escrita.

A estatueta de mamute da Gruta de Vogelherd, com aproximadamente 40.000 anos, apresenta múltiplas sequências de cruzes e pontos na sua superfície.

A estatueta de mamute da Gruta de Vogelherd, com aproximadamente 40.000 anos, apresenta múltiplas sequências de cruzes e pontos na sua superfície.

Universität Tübingen / Hildegard Jensen, CC-BY-SA 4.0

Símbolos geométricos gravados em pendentes, ferramentas, estatuetas e até flautas há cerca de 40 mil anos, descobertos sudoeste da Alemanha, poderão constituir uma forma simples e primitiva de escrita, revela um novo estudo, publicado na revista PNAS.

Para chegar a esta conclusão, investigadores alemães analisaram 260 objetos do Paleolítico descobertos em grutas na região arqueológica do sudoeste alemão. Os artefactos, datados entre 43 mil e 34 mil anos, foram produzidos por alguns dos primeiros Homo Sapiens a chegar à Europa.

A estatueta “Adorante” da Gruta de Geißenklösterle, com aproximadamente 38.000 anos, consiste numa pequena placa de marfim com uma figura antropomórfica e múltiplas sequências de entalhes e pontos. A aplicação destas marcas sugere um sistema de notação, principalmente nas filas de pontos no verso da chapa.

Landesmuseum Württemberg / Hendrik Zwietasch, CC BY 4.0

Os objetos apresentam uma grande variedade de símbolos: entalhes em forma de V, sinais semelhantes a estrelas, linhas, cruzes e pontos, organizados em diferentes sequências.

A equipa digitalizou as marcas e recorreu a modelação computacional e análise estatística para identificar padrões nas sequências, avaliando a densidade, a diversidade e a repetição dos sinais.

Os resultados foram depois comparados com sistemas de registo mais recentes, incluindo a escrita moderna e antes da escrita cuneiforme, desenvolvida na Mesopotâmia entre 3500 e 3350 a.C.

Tabuleta proto-cuneiforme do período Uruk V

Staatliche Museen zu Berlin, Vorderasiatisches Museum / Olaf M. Tesmer, CC-BY-SA 4.0

Sem escrita moderna, mas com organização

As sequências analisadas são muito diferentes da escrita atual. Ainda assim, revelaram semelhanças estatísticas inesperadas com a escrita proto-cuneiforme, o que sugere que não se trataria de simples elementos decorativos aleatórios.

“A forma como as marcas são utilizadas tem um tipo de configuração que se assemelha muito à proto-cuneiforme. Há repetição e organização de padrões”, afirmou Genevieve von Petzinger, paleoantropóloga independente que não participou no estudo, citada pela revista New Scientist.

Se esta interpretação estiver correta, isso significa que os humanos já codificavam informação em símbolos dezenas de milhares de anos antes do aparecimento dos primeiros sistemas de escrita.

Tabuleta proto-cuneiforme do período Uruk IV com aproximadamente 3350-3200 anos

Staatliche Museen zu Berlin, Vorderasiatisches Museum / Olaf M. Tesmer, CC-BY-SA 4.0

“Quando os humanos modernos deixaram África para povoar o planeta, provavelmente já possuíam capacidades cognitivas semelhantes às nossas. Em termos gerais, talvez não devêssemos ficar surpreendidos”, disse o investigador.

Símbolos associados a objetos específicos

A análise revelou também padrões na forma como os símbolos eram utilizados em diferentes tipos de objetos ao longo de cerca de 10 mil anos. Os pontos, por exemplo, não aparecem gravados em ferramentas, enquanto as cruzes não foram identificadas em figuras humanoides.

Os investigadores ainda não sabem o que significavam concretamente estas marcas. No entanto, defendem que os padrões identificados reforçam a hipótese de que os símbolos eram usados para comunicar informação.

Quanto ao conteúdo dessa eventual comunicação, as hipóteses são várias. Alguns investigadores sugerem que os símbolos poderiam servir para marcar o tempo, ajudando caçadores-recolectores a registar ciclos de vida ou migrações sazonais de animais. Outros admitem que pudessem representar plantas, alimentos ou acontecimentos importantes, como nascimentos.



SIC Noticias

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