Entrevista SIC Notícias
Uma equipa de investigadores portugueses parte este sábado para o deserto do Atacama, no Chile, para instalar um telescópio solar desenvolvido em Portugal que poderá ajudar a ultrapassar um dos maiores obstáculos na descoberta de planetas semelhantes à Terra.

Gerhard Huedepohl
A previsão é que o telescópio comece a recolher os primeiros dados a 8 de abril.
Um instrumento para resolver o problema do “ruído estelar”
O principal objetivo do novo instrumento é ajudar a resolver um dos maiores desafios na procura de planetas semelhantes à Terra.
Esse fenómeno refere-se à atividade natural das estrelas, como manchas solares ou variações na sua superfície, que pode dificultar a identificação de sinais provocados por planetas.
“O PoET permitirá observar o Sol e encaminhar a sua luz para um dos espectrógrafos mais precisos do mundo, o ESPRESSO, instalado num dos telescópios do Observatório Europeu do Sul e que foi já parcialmente desenvolvido pela equipa do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço”.
Este sistema permitirá analisar a luz solar com grande detalhe.
“Vai permitir obter dados sobre o Sol, no seu todo e de zonas específicas como, por exemplo, as manchas solares, com um nível de precisão que nunca foi alcançado”.
Um passo para encontrar outras Terras
Com dados mais precisos sobre a atividade solar, os cientistas esperam conseguir distinguir melhor os sinais provocados por exoplanetas, planetas em torno de outras estrelas.
“A descoberta mais interessante será encontrar um planeta idêntico à Terra”.
Segundo explica, o espectrógrafo ESPRESSO já tem capacidade para detetar sinais muito subtis, mas o ruído provocado pela atividade das estrelas continua a ser uma das principais limitações.
“O instrumento ESPRESSO poderá tornar isso possível, mas será o PoET a abrir definitivamente essa porta, ao ajudar a resolver o problema do ‘ruído estelar’, que hoje constitui a principal limitação para alcançar esse objetivo”.
Observações do Sol também podem ajudar a estudar fenómenos que afetam a Terra
O telescópio não será usado apenas para estudar o ‘ruído estelar’ e exoplanetas. Os dados recolhidos poderão também contribuir para o estudo da física solar.
“O ruído estelar não é o único fenómeno científico que será estudado com o PoET. No Instituto de Astrofísica temos investigadores dedicados a outras áreas da física estelar, incluindo fenómenos solares que podem ter impacto na Terra”.

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Há uma forte expectativa na comunidade científica internacional “que acompanhou o desenvolvimento do PoET em workshops que organizámos e que aguarda agora com grande expectativa os primeiros dados do instrumento”.
Um instrumento totalmente desenvolvido por uma equipa portuguesa
O PoET foi desenvolvido por investigadores portugueses do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, que foi responsável pelo desenho, integração e testes de todo o sistema.
“É o resultado de mais de duas décadas de trabalho do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço na área da instrumentação astronómica”.
A equipa será também responsável por gerir a exploração científica deste instrumento. Segundo o investigador, a participação portuguesa na construção da instrumentação do Observatório Europeu do Sul tem sido crescente.
“Esta missão já está para lá das 20 que foram feitas nos últimos 15 anos. Portugal tem uma participação significativa e bastante reputada nesta infraestrutura”.
Depois da instalação no Chile, o momento mais aguardado pela equipa será quando o telescópio observar o Sol pela primeira vez.
“Neste momento, a primeira luz do instrumento, prevista para os primeiros dias de abril, é certamente o momento esperado com mais expectativa”.
