
É um dos nomes mais valiosos da literatura portuguesa contemporânea. Estudou e trabalhou na Alemanha, foi professora catedrática em Lisboa e viveu no Brasil e em Moçambique. E só numa fase mais madura da vida, aos 41 anos, lançou o primeiro livro: “O Silêncio”, distinguido com o Prémio de Ficção do PEN Clube. Desde aí, nunca mais parou de publicar, revelando-se uma notável romancista e contista. Em 2025 publicou o 21º livro “Autobiografia não escrita de Marta Freud”, a revelar o lado sombrio de Sigmund Freud, obra premiada com o Grande Prémio da APE. Aos 86 anos, Teolinda Gersão prepara novo romance, mostra-se preocupada com as dores do mundo e lamenta que os netos tenham emigrado, porque “este país não tem futuro para eles.” Ouçam-na nesta primeira parte do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas” de Bernardo Mendonça
Teolinda Gersão descobriu o prazer da escrita logo muito cedo, na infância, passada em Coimbra, fascinada com o mundo infinito de histórias arrumadas nas estantes da biblioteca do seu pai.
Depois fez um longo caminho na academia, até se afirmar escritora. Formou-se em ‘Germanísticas’, estudou e trabalhou em Berlim, foi professora catedrática em Lisboa e chegou a viver no Brasil e em Moçambique.
Matilde Fieschi
E só numa fase mais madura da vida, aos 41 anos, lançou o seu primeiro livro: “O Silêncio”, uma história de amor e desencontros, distinguida com o Prémio de Ficção do PEN Clube.
Desde aí, nunca mais parou de publicar, revelando-se uma notável romancista e contista, de imaginação prodigiosa, a combinar as matérias do quotidiano com o absurdo, a vida normal e surreal, e seus segredos e mistérios, numa multiplicidade de registos e vozes narrativas.
Matilde Fieschi
Esta autora assume que “cada conto é um disparo, uma bala.” Onde ela pode estar na pele de D. Branca, a Banqueira do Povo, ou ser um skater dador de esperma.
Alguns dos seus contos e livros têm sido adaptados ao cinema e ao teatro e encenados em Portugal, na Alemanha e na Roménia.
Matilde Fieschi
Aos 85 anos, Teolinda publicou o seu 21º livro “Autobiografia não escrita de Marta Freud”, —- também ele premiado em 2025 com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores).
Um romance baseado nas cartas que Marta trocou com o marido, Sigmund, publicadas em quatro volumes e portadoras de uma perspetiva nova e polémica sobre o pai da psicanálise, que não sai nada bem neste retrato — a revelar a fragilidade de um homem que forjou boa parte da sua tese sobre a mente humana, em contraste com a grandeza da sua mulher, remetida ao anonimato.
Um caso paradigmático da opressão e silenciamento de tantas outras mulheres ao longo das épocas e dos tempos, num mundo patriarcal.
Este tema percorre boa parte da obra de Teolinda Gersão que considera que a grande revolução do mundo será das mulheres, apesar da desigualdade e violência de género ser ainda uma realidade expressiva.
Matilde Fieschi
Como imagina Teolinda essa revolução, já que há tantos sinais contrários?
Esta pergunta é colocada à autora que se afirma “uma escritora do inconsciente e do sombrio”, que “escreve sobre o que não sabe”, movida pelo espanto.
Aos 86 anos, Teolinda afirma que a idade a emancipou de todas as obrigações, para dedicar o máximo de tempo ao que mais gosta: escrever. Ou seja, Teolinda não está para fretes. E isso é sempre tão libertador.
Como é o seu método de escrita? Escreve todos os dias, à mesma hora, no mesmo local, esteja mais ou menos inspirada, como um rigoroso ofício? Ou aguarda pacientemente pelos dias mais inspirados?
A sua literatura exige um enorme silêncio e recolhimento, ou já escreveu contos e romances acompanhada por uma bela barafunda?
Matilde Fieschi
Teolinda está já a escrever a esboçar a sua próxima obra e, em maio, sairá a 5ª edição do livro de contos “Histórias de Ver e Andar”, pela Porto Editora.
Ainda neste podcast, Teolinda reflete sobre o estado obscuro e extremado deste novo ciclo de ódio, guerras e desumanidade.
E comenta uma palavra em alemão para nomear o que a maioria de nós está a sentir: “Weltschmerz” (Veiltshmértz). Que significa: dor pelo mundo, dor do mundo.
“O género humano não vale grande coisa”, escreveu Teolinda.
O que pode a arte, e no caso a literatura, iluminar sobre o futuro?
Como podemos resistir ao pessimismo, ao cinismo e à desesperança? Estas perguntas também lhe são feitas.
A conversa arranca com Teolinda a assumir que detesta as regras desta sociedade demasiado competitiva, como uma corrida de uns contra os outros, perante uma meta.
Ela que afirma que a seu ver a pessoa que chega em segundo ou em terceiro pode ser mais interessante do que a que recebe a medalha ou a taça. E que prefere olhar para os vencidos.
Porque talvez as boas histórias estejam a maior parte das vezes aí, na sombra, na margem, na escuridão, fora dos pódios, nos bastidores, debaixo da mesa e atrás das portas, onde poucos reparam, fora da luz e do óbvio. É esse o olhar de uma boa escritora?
Matilde Fieschi
Nesta nova temporada, o genérico é agora assinado por A Garota Não. Os retratos são da autoria de Matilde Fieschi. E a sonoplastia deste podcast é de Francisco Marujo.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.
