A presidente da Câmara de Coimbra avisou, esta quinta-feira, que quer menos carros na cidade, mas diz que tal só será possível quando se oferecer alternativas às necessidades das pessoas.
Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial
ANTÓNIO COTRIM
“Que fique claro que Coimbra quer menos carros na cidade. Ter estacionamento gratuito em toda a parte vai ter de acabar. Não vamos diabolizar o carro, mas queremos menos carros na cidade”, afirmou Ana Abrunhosa (PS/Livre/PAN), que falava na sessão inaugural de um evento promovido pelo município intitulado “Conversas sobre Ecologia Urbana e o Papel das Árvores na Cidade”.
Apesar de ter assumido a vontade de reduzir o espaço para os automóveis na cidade, a autarca considerou que tal só poderá ser feito quando forem oferecidas “alternativas às necessidades das pessoas”.
Essa alteração, vincou, “não se faz de um dia para o outro”, mas entendeu que o município tem de ter essa pretensão no horizonte, sem fazer referência a metas ou prazos para tal.
Durante a sua intervenção, Ana Abrunhosa considerou que as árvores no espaço urbano assumem um “papel estruturante para cidades resilientes e mais preparadas para a mudança”.
Para a presidente da Câmara de Coimbra, a ecologia tem de estar presente na revisão do Plano Diretor Municipal, aliando-a também à mobilidade.
Ana Abrunhosa assumiu que o município tem de “investir mais no diálogo, na partilha de conhecimento e na construção conjunta de soluções”, num trabalho que tem de ter uma ligação à academia.
“Não podemos olhar para as árvores urbanas apenas como elementos paisagísticos. Têm de ser elementos fundamentais da cidade e da vivência da cidade”, disse a autarca.
Dezenas de árvores abatidas
Recentemente, no âmbito das obras do Sistema de Mobilidade do Mondego, foram abatidas mais de 20 árvores na rua Lourenço Almeida Azevedo, tendo Ana Abrunhosa assumido que a pressa “não pode ser justificação” para não se abrir um diálogo.
“Vamos assumir o que aconteceu e vamos aproveitar isso como fator de aprendizagem”, disse.
No debate, moderado pela docente Helena Freitas, o ex-vice-presidente da Câmara do Porto, Filipe Araújo, apontou para a necessidade de o ambiente estar presente nas várias decisões de um município, apontando também para o plano de arborização daquela cidade (apesar de, em 2025, o jornal Público dar conta de que o Porto tinha apenas plantado um quilómetro de 24 definidos como de arborização muito prioritária em 2023).
Já o diretor do Laboratório da Paisagem de Guimarães, Carlos Ribeiro apontou para a necessidade de um consenso a nível local para se conseguir uma política contínua e continuada na área ambiental.
No momento de participação do público, Cláudia Acabado, do Coimbr’a Pedal e do Jardim Monte Formoso, criticou a falta de coragem para se tirarem os carros da rua Lourenço Almeida Azevedo, que poderiam poupar abates de árvores, numa altura em que se veem grandes cidades, como Paris, a assumir esse caminho.
A munícipe defendeu políticas integradas, em que se pense não apenas a ecologia, mas também a mobilidade, propondo ainda o fim de relvados em rotundas e outros espaços da cidade, que poderiam ser substituídos por prados, mais amigos dos polinizadores.
Essa questão tinha sido abordada também pelo docente da Universidade de Coimbra João Loureiro, que alertou para uma gestão do espaço verde municipal mais cuidada, onde há sobretudo “relvados estéreis”, sem preocupação com a biodiversidade presente na cidade.
Rosa Santos, que integrou o movimento contra o abate de árvores na Lourenço Almeida Azevedo, pediu ao executivo liderado por Abrunhosa para deixar “de arrasar para plantar de novo”, sugerindo uma substituição gradual do coberto arbóreo na cidade “para evitar descontinuidades paisagísticas”.
“Ao substituirmos vegetação por cimento e asfalto estamos a criar ilhas de calor urbano”, notou a professora da Universidade de Lisboa Cristina Branquinho, lamentando também os ambientes excessivamente esterilizados em que as crianças crescem, numa sociedade cada vez mais desvinculada da natureza.
