Agronegócio

Tesouro genético da oliveira chegou ao Banco Mundial de Sementes


Sementes de oliveira foram depositadas este ano pela primeira vez no Banco Mundial de Sementes de Svalbard, no Ártico, conhecido como “o bunker do fim do mundo”, anunciou o Conselho Oleícola Internacional (COI), organismo intergovernamental com sede em Madrid.

Este é o maior banco mundial de sementes e é conhecido como “bunker do fim do mundo” ou “arca de Noé das sementes”, por armazenar sementes de milhares de espécies agrícolas, essenciais na alimentação da Humanidade, e ter capacidade para resistir a catástrofes como terramotos, bombas, erupções vulcânicas ou outras.

As sementes de oliveira, transportadas desde Espanha, foram entregues no final de fevereiro ao Banco Mundial de Sementes de Svalbard, um arquipélago da Noruega localizado no Ártico, para passarem a integrar “o maior sistema mundial de conservação de recursos fitogénicos”, revelou o Comité Oleícola Internacional (COI).

“Trata-se de um avanço importante na proteção do património genético mundial da oliveira porque esta espécie emblemática da bacia mediterrânica, que já se cultiva nos cinco continentes, não é alheia aos grandes desafios globais como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade ou a aparição de novas pragas e doenças”, disse o diretor executivo do COI, Jaime Lillo, citado num comunicado.

Em declarações recentes à agência Lusa, Jaime Lillo considerou que a diversidade genética que há hoje da oliveira é um “verdadeiro tesouro”, fruto de um cultivo milenar que foi selecionando e preservando as melhores qualidades para produção de azeite e azeitonas, assim como as variedades que melhor se adaptavam a solos e climas.

“Preservar a oliveira significa salvaguardar uma cultura milenar de enorme valor ambiental, capaz de atuar como sorvedouro de carbono, e garantir a produção do óleo [alimentar] mais saudável do mundo, essencial para alimentar de forma saudável e sustentável uma população global em constante crescimento”, acrescentou.

Segundo dados do COI, a cultura da oliveira ocupa atualmente cerca de 11 milhões hectares em todo o mundo, a maioria na zona do Mediterrâneo.

Espanha é o maior produtor de azeite do mundo – 1.419.000 toneladas na campanha de 2024/2025, o equivalente a cerca de 40% da produção mundial. A produção no conjunto dos países europeus alcançou 2.110.000 toneladas na mesma campanha, com 177.000 toneladas a corresponderem a Portugal, segundo os mesmos dados do COI, ainda provisórios.

O impacto das alterações climáticas e a forma como o clima, apesar dos avanços tecnológicos, continua a determinar a produção de azeite ficou bem patente nas últimas campanhas de produção, como realçou Jaime Lillo nas declarações à Lusa.

Por causa da seca e golpes de calor que atingiram a Península Ibérica, houve pela primeira vez desde que existem estatísticas, duas campanhas consecutivas historicamente baixas de produção de azeite, em 2022/2023 (2.760.000 toneladas) e 2023/2024 (2.589.000 toneladas), a que se seguiu, com o regresso da chuva a níveis normais, a maior produção de sempre, em 2024/2025 (3.572.000 toneladas).

A estimativa para a campanha de 2025/2026 é que a produção global atinja 3.440.000 toneladas de azeite.

As oscilações na produção tiveram impacto direto e imediato nos preços do azeite, com subidas históricas, a que se somou o aumento mundial da procura, após a pandemia da covid-19, num fenómeno associado a preocupações com a alimentação mais saudável, segundo o COI.

Depositar sementes em Svalbard, “funciona como uma espécie de seguro genético global” porque possibilita “armazenamento seguro e a longo prazo de duplicações de sementes conservadas em bancos de germoplasma de todo o mundo, com o objetivo de salvaguardar a biodiversidade das culturas face a ameaças como desastres naturais, conflitos, falhas nos bancos genéticos ou efeitos das alterações climáticas”, realçou o COI, numa informação enviada à Lusa.

As sementes de oliveira levadas para o “bunker do fim do mundo” são duplicações de sementes do Banco de Germoplasma de Oliveira da Universidade de Córdova (no sul de Espanha) e outras de exemplares silvestres de oliveira recolhidas pela Universidade de Granada (também no sul de Espanha) na Península Ibérica e nas ilhas Canárias.

No banco da Universidade de Córdova há sementes de mais de 700 variedades de oliveira, com origem em diversos países, incluindo Portugal.

“A diversidade genética é o que garante a continuidade de qualquer cultura. Sem variedade genética não é possível desenvolver novas variedades capazes de se adaptarem aos desafios atuais” e por isso é fundamental conservar os exemplares silvestres da oliveira, que frequentemente “albergam genes de resistência a doenças e a stresses abióticos, como a seca ou as altas temperaturas, e que estão pouco representados no material atualmente cultivado”, explicou a professora da Universidade de Córdova Concepción Muñoz, citada no comunicado do COI.

Depois de um processo de preparação técnica, seguiu-se o transporte e entrega no Banco Mundial de Sementes, seguindo normas internacionais aplicadas e exigidas pelo banco de Svalbard.

Este depósito, que o COI define como “um marco histórico para a conservação da diversidade genética da oliveira”, envolveu várias entidades, entre elas, O Comité Oleícola Internacional, a agência das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Ministério da Agricultura de Espanha e as universidades de Granada e Córdova, entre outras entidades.

O COI é uma organização intergovernamental criada sob a égide das Nações Unidas em 1959 que integra 46 países, incluindo os 27 da União Europeia. Estes 46 países representam 95% da origem da produção de azeite no mundo.



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