Um crime num cemitério nos arredores de Chicago em 2009 parecia difícil de provar em tribunal. Mas os ladrões de túmulos acabaram “traídos” por uma prova inesperada.

Paul Beaty
Túmulos tinham sido abertos, ossadas deslocadas e jazigos revendidos, mas os autores do crime alegavam que não trabalhavam no cemitério quando tudo aconteceu. Os investigadores tinham de provar duas coisas essenciais: de onde tinham sido retirados os restos mortais e quando tinham sido novamente enterrados.
A resposta acabou por surgir a partir de uma pista improvável: um pequeno tufo de musgo encontrado a cerca de 20 centímetros de profundidade, misturado com ossos humanos. A análise científica dessa planta ajudou a reconstruir o crime e a condenar os responsáveis quando o caso chegou a tribunal, em 2015.
Num estudo publicado na revista Forensic Sciences Research, um cientista e um agente do FBI descrevem, pela primeira vez em detalhe, como essa planta acabou por se tornar a peça central da investigação.
O telefonema inesperado do FBI
“Um dia, em 2009, atendi o telefone e era o FBI, a perguntar se os podia ajudar a identificar algumas plantas”, conta von Konrat.
Os agentes levaram ao museu uma pequena amostra recolhida durante as escavações no cemitério. O musgo tinha sido encontrado enterrado com restos mortais que tinham voltado a ser enterrados noutro local do cemitério.
“Os investigadores queriam saber que tipo de musgo era e há quanto tempo estava enterrado no solo”, diz von Konrat.
A espécie que não devia estar ali
“Fizemos um levantamento dos diferentes tipos de musgo que cresciam perto do local do crime e esta espécie não estava presente”, explica o investigador.
A equipa decidiu então examinar outras zonas do cemitério.
“Quando examinei o resto do cemitério, encontrámos uma enorme colónia desta espécie a crescer exatamente na área de onde o investigador suspeitava que os ossos tinham sido desenterrados”, conta von Konrat.
A coincidência era demasiado forte para ser ignorada. O musgo sugeria que os restos mortais tinham sido retirados dessa secção específica do cemitério.
Determinar a idade do musgo
Mas os investigadores precisavam ainda de saber qual a idade desse musgo.
Os funcionários acusados defendiam que os restos mortais teriam sido removidos por outras pessoas antes de eles começarem a trabalhar no cemitério. Se o musgo tivesse sido enterrado muito antes, isso poderia reforçar essa versão.
Para resolver o enigma, os cientistas recorreram a uma característica pouco conhecida destas plantas.
“O musgo é um pouco estranho. Mesmo seco e aparentemente morto, pode manter algum metabolismo ativo, algumas células que ainda estão ativas. A quantidade de atividade metabólica diminui com o tempo, e isso pode dizer-nos há quanto tempo foi recolhida uma amostra de musgo”, explica von Konrat.
A atividade metabólica de uma planta pode ser estimada com base na sua clorofila, o pigmento verde responsável pela fotossíntese.
Os investigadores analisaram a absorção de luz da clorofila em amostras de musgo com idades conhecidas, incluindo exemplares frescos e outros guardados no museu há mais de uma década. Depois compararam esses resultados com a amostra recolhida no cemitério.
A conclusão foi clara: o musgo tinha apenas um a dois anos.
A pista que ajudou a condenar os culpados
Essa data coincidia com o período em que os funcionários acusados trabalhavam no cemitério.
A análise botânica tornou-se assim uma prova importante no julgamento. Em 2015, quatro funcionários acabaram condenados por profanação de restos mortais.
“De vez em quando surge um caso em que o FBI precisa de recorrer a especialistas para recolher e analisar provas. No caso do Cemitério Burr Oak, o trabalho do Programa Botânico do Field Museum revelou-se extremamente valioso”.
Um tipo de prova raramente usado
Depois deste episódio, von Konrat foi convidado a colaborar noutros casos envolvendo musgos. Ainda assim, o uso destas plantas em ciência forense continua a ser raro.
Num estudo publicado em 2025, o investigador e os colegas analisaram o uso de musgos e outras briófitas em investigações criminais. Encontraram apenas cerca de uma dúzia de casos documentados em cem anos.
“Os musgos são frequentemente ignorados. Mas esperamos que esta investigação mostre que podem ser uma ferramenta útil para as autoridades”, diz von Konrat.
