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Um passado cheio de sinais: os passos de Abdul Bashir até ao duplo homicídio no Centro Ismaili



Três anos depois, o eco da manhã de 28 de março de 2023 ainda não se apagou. Para Carla, o tempo parou no momento em que a filha Mariana, de 24 anos, foi morta enquanto tentava travar um ataque. O instinto de mãe não falhou e, horas mais tarde, a pior notícia acabou por chegar.

O autor do violento ataque foi Abdul Bashir, que já confessou o crime em tribunal. Admitiu ter matado Mariana e Farana com dezenas de golpes de faca.

Tudo começo em 2019

Este não terá sido o primeiro crime que cometeu. Para isso, é necessário recuar até 2019. No final desse ano, em dezembro, um incêndio no centro de acolhimento de Lesbos, na Grécia, tirou a vida da mulher de Abdul.

As autoridades gregas acreditam que foi o próprio que, com recurso a chama direta e a uma botija de gás, provocou a explosão no abrigo enquanto a vítima dormia. Impediu os vizinhos de apagarem o fogo, saiu do abrigo e levou os três filhos.

A chegada a Portugal

Em 2021, Abdul entrou em Portugal, chegando da Grécia ao abrigo do programa de recolocação de refugiados. Foi-lhe atribuído, nesse dia, o estatuto de proteção internacional. Ninguém suspeitava que este homem viria a ser procurado.

Abdul Bashir e os três filhos estavam em Portugal há pouco mais de dois meses quando, a 5 de janeiro de 2022, a justiça grega emitiu o primeiro alerta.

Na altura, um mandado de detenção europeu identificava-o como Abdul Bashir Khil, nascido em dezembro de 1990. Era um homem procurado pela Grécia há mais de um ano quando Abdul matou duas mulheres no Centro Ismaili.

Um dia depois do segundo crime, foi emitido um novo mandado de detenção. Desta vez, a ficha policial era mais extensa, incluindo outros apelidos, como Kheili, e com datas de nascimento variando entre 1990 e 1994. Já havia a certeza de que se tratava da mesma pessoa.

Assim que chegaram a Portugal, em 2021, Abdul e os filhos foram integrados no projeto promovido pela Fundação FOCUS, de assistência humanitária da rede Aga Khan, com sede no Centro Ismaili. Farana, uma das vítimas, coordenava o projeto.

Garantiu-lhe uma casa para viver com os filhos, escola para os menores, consultas e refeições prontas. Cada elemento da família recebia 150 euros por mês, totalizando 600 euros.

As queixas e exigências de Abdul Bashir

Um mês depois de estar a viver em Portugal, Abdul enviou as primeiras mensagens para Farana com várias queixas, exigindo uma pessoa para cuidar dos filhos e para realizar tarefas domésticas, como cozinhar e limpar.

Abdul saiu de Portugal com os filhos em fevereiro de 2022 e foram para a Alemanha, onde requereu asilo. O pedido foi recusado por já ter estatuto de refugiado em Portugal. Durante esse período, manteve contacto com Farana para continuar a beneficiar dos apoios em Portugal, até enviar a primeira mensagem de assédio.

Abdul e os filhos regressaram a Portugal em abril. A partir daí, Mariana Jadaugy, que tinha entrado para a equipa em fevereiro, passou a acompanhar Abdul e a família. No entanto, Abdul continuou a enviar mensagens com exigências e reclamações, tanto a Mariana como a Farana.

O problema era sempre o mesmo: queria alguém para tomar conta dos filhos e exigia que o processo fosse tratado com máxima urgência.

Desde o final de 2022 e até ao dia do crime, Abdul enviou vários emails à princesa Zahra Aga Khan. Mesmo sem resposta, continuou a enviar mensagens, criando novas contas sempre que a anterior era bloqueada.

Nos emails, pedia ajuda à princesa para interceder junto da equipa do Centro Ismaili e fazia queixas sobre o dia a dia, chegando a mencionar que procurava uma mulher para casar.

Uma faca de cozinha na mala durante vários meses

Foi provado em tribunal que Abdul andava com uma faca de cozinha na mala há dois meses. Chegou a escrever isso nos emails enviados à princesa, enviando até uma fotografia com cinco facas, uma das quais utilizou no ataque.

Dias antes do crime, Abdul comprou uma viagem para si e para os três filhos, com destino a Zurique, na Suíça, marcada para 29 de março.

No julgamento, várias testemunhas descreveram o ataque e a incapacidade inicial de controlar Abdul no Centro Ismaili. Foi necessário um voluntário pedir ajuda na rua. Chegaram dois agentes da PSP, que estavam a realizar um serviço numa loja do cidadão.

Mesmo perante a presença da polícia, Abdul não cedeu e não largou a faca. Sem conseguirem travar o ataque, os agentes dispararam várias vezes. O arguido só largou a faca quando chegou uma equipa de intervenção rápida da PSP.

Durante o julgamento, Abdul apresentou a sua versão às juízas. Foram realizadas várias perícias psiquiátricas, e todos os especialistas concordaram que o arguido seria inimputável.

No entanto, o tribunal optou por dar mais valor à avaliação feita por um psicólogo forense. As avaliações dos psiquiatras indicaram que Abdul era esquizofrénico.

Tudo à estaca zero

Ouvidos os peritos, as juízas da primeira instância decidiram que Abdul Bashir era imputável e condenaram-no a 25 anos de prisão. O processo voltou à estaca zero depois de a defesa recorrer da condenação.

O Supremo Tribunal concluiu que as juízas da primeira instância não podiam ter decidido sobre a consciência dos atos sem dar tempo à defesa para responder.

O caso voltou a ser discutido no Campus de Justiça, e, após nova análise, as juízas mantiveram a decisão: Abdul foi novamente condenado à pena máxima.



SIC Noticias

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